Estudo: 99% das árvores da Amazônia dependem de animais para se reproduzir
99% das árvores da Amazônia dependem de animais para reprodução

Um estudo inédito revelou que 99% das árvores da Amazônia dependem de animais para se reproduzir. Apenas 1% das espécies analisadas consegue completar a polinização e a dispersão de sementes sem a ajuda de seres vivos como abelhas, aves, mamíferos e formigas. A pesquisa, que abrangeu 5.201 espécies de árvores — cerca de metade de todas as espécies conhecidas na Amazônia —, representa 94% dos indivíduos estimados na floresta, conforme os pesquisadores.

Animais como protagonistas da reprodução

Quase 80% das espécies avaliadas dependem de animais tanto para transportar pólen entre as flores quanto para espalhar sementes pela floresta. As abelhas aparecem como os visitantes mais frequentes na polinização, associadas à maioria das árvores estudadas. Além delas, participam borboletas, besouros, moscas, vespas, beija-flores e morcegos, dependendo da espécie de árvore. Na dispersão de sementes, aves, mamíferos e formigas levam as sementes para longe da planta-mãe, permitindo o estabelecimento de novas árvores.

Caio Simões Ballarin, biólogo e pós-doutorando do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), um dos colaboradores da pesquisa, explica a diferença entre espécie e indivíduo: "Espécie é o tipo de árvore — como falar em 'castanheira' ou 'açaí'. Indivíduo é cada árvore de pé na floresta, uma a uma. Então, embora a gente tenha estudado metade dos tipos de árvores, esses tipos são justamente os mais comuns e numerosos — por isso eles representam quase todas as árvores que você encontraria caminhando pela floresta."

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Mecanismos de dispersão de sementes

O pesquisador destaca as diferentes formas de dispersão realizadas pelos animais:

  • Endozoocoria: o animal come o fruto e elimina a semente nas fezes em outro local. É o mecanismo mais comum.
  • Epizoocoria: a semente "pega carona" presa ao corpo do animal, no pelo ou nas penas.
  • Sinzoocoria: o animal transporta a semente para armazená-la como alimento, e parte delas acaba germinando.

Espécies-chave e o papel do ingá

O trabalho identificou grupos de árvores que concentram uma parcela expressiva das interações entre plantas e animais na Amazônia, como os gêneros Inga, Protium, Eschweilera, Pouteria, Virola e Ocotea. O ingá é um dos principais exemplos, pois seus frutos alimentam aves, mamíferos e insetos, enquanto suas flores atraem polinizadores como abelhas, morcegos, mariposas e beija-flores. "Uma árvore só pode sustentar dezenas de tipos de bichos. O ingá mostra como uma única espécie pode estar no centro de uma enorme teia de relações ecológicas", afirma Ballarin.

Os cientistas destacam ainda as chamadas espécies-chave, que exercem papel relevante não pela abundância, mas pelo impacto que provocam. "Mesmo com poucos indivíduos, ela pode ser fundamental porque oferece recursos muito importantes e procurados. Sem ela, várias espécies 'sentem o baque'... mas também existem árvores muito abundantes que cumprem um papel parecido, interagindo com uma enorme variedade de organismos", completa.

Riscos da defaunação

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a preocupação com a defaunação — perda de animais provocada por caça, desmatamento, fragmentação florestal e mudanças climáticas. "Como a maioria das árvores depende desses animais para se reproduzir, perder essas populações — algo que já acontece pela caça, desmatamento e fragmentação da floresta — coloca em risco a própria capacidade da floresta de se regenerar", explica Ballarin.

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Sem polinizadores e dispersores, muitas árvores têm mais dificuldade para se reproduzir e colonizar novas áreas. Esse efeito também pode comprometer a oferta de frutos consumidos por comunidades tradicionais, como açaí e castanha-do-pará, produtos que dependem diretamente dessas interações ecológicas. O biólogo destaca: "Cada grupo de animal é insubstituível para um certo conjunto de plantas. Por isso, a resposta mais honesta é que, embora as abelhas se destaquem pela quantidade de plantas que atendem, a perda de qualquer grupo carrega riscos próprios e específicos." Ele completa afirmando que o sistema funciona graças à diversidade de espécies, com animais interagindo simultaneamente com diferentes tipos de flores e frutos. É a soma dessas interações que mantém a floresta funcionando.