A pescadora profissional Jusimara Ferreira da Silva Leite, de 47 anos, testemunhou o sofrimento e a morte da nora, Bárbara Luana Fernandes Aleixo, de 29 anos, grávida de 30 semanas, no Hospital São Francisco, em Três Marias (MG). O caso ocorreu no dia 9 de junho, quando Bárbara e o bebê faleceram. Em entrevista, Jusimara descreveu as últimas horas da nora, desde a chegada ao hospital até o desfecho trágico.
Pressão alta e início do drama
Segundo Jusimara, Bárbara não apresentava sintomas e fazia pré-natal normal. Durante consulta de rotina no posto de saúde de São Gonçalo do Abaeté, a enfermeira orientou que medisse a pressão antes de dormir. Na casa da sogra, a pressão atingiu 18 por 10. Imediatamente, Bárbara, a sogra e uma amiga foram ao hospital de Três Marias, referência do SUS para emergências noturnas. Chegaram por volta das 20h30.
Classificação de risco e primeiros procedimentos
Na triagem, Bárbara recebeu classificação laranja e foi medicada para controlar a pressão. Como a primeira medicação não fez efeito, uma segunda dose foi administrada. A gestante começou a sentir fortes dores. "Ela sentia muita dor. Foi piorando cada vez mais. Me disse que era uma forte dor na boca do estômago e que irradiava para o braço", relembra Jusimara. Exames iniciais não apontaram pré-eclâmpsia, e a família foi informada de que os sintomas poderiam ser ansiedade.
Pedidos por obstetra ignorados
Bárbara perguntava frequentemente pelo obstetra. A sogra afirma que foram informadas de que o médico estava em casa e que a médica plantonista havia tentado contato por ligações e mensagens, sem resposta. Durante a madrugada, a médica implorou para que o obstetra fosse ao hospital, mas ele não compareceu. O estado de Bárbara piorou: vômitos, dores intensas e medo de morrer. "Eu vou morrer, ela falou pra mim. Quando ela estava tendo a parada cardiorrespiratória, ela suspirou fundo, olhou pra mim com aquele olhar de despedida e apagou", disse Jusimara.
Tentativas de contato e recusas
A Polícia Civil reconstituiu a cronologia das tentativas de acionar o obstetra Higo Moreira Fonseca:
- 1ª tentativa (22h08): A médica plantonista enviou por WhatsApp os primeiros exames alterados (pressão 180/80 mmHg). Higo avaliou que os sintomas poderiam ser ansiedade e disse que o caso não era obstétrico.
- 2ª à 5ª tentativa: Durante a madrugada, a equipe fez novas ligações e mensagens, informando a piora do quadro. Higo permaneceu em casa.
- 6ª tentativa (por volta das 5h): Com piora significativa, Bárbara foi transferida para a Sala Vermelha. A médica ligou novamente, mas Higo insistiu que o caso era da clínica médica e encerrou a ligação.
- 7ª tentativa: Uma técnica de enfermagem falou com Higo, que recusou comparecer. Às 5h17, ele enviou mensagem no grupo de WhatsApp do hospital: "as pacientes gestantes com quadros clínicos, incluindo surtos psicóticos, sem queixas obstétricas, deverão ser conduzidas pela clínica médica".
Morte e prisão do médico
Bárbara desmaiou três vezes. Após o segundo desmaio, os batimentos do bebê ainda eram audíveis. Na terceira vez, a equipe considerou cesariana, mas a morte foi comunicada por volta das 5h30 pelo diretor do hospital, Higo Fonseca. Ele alegou que não fez a cesariana para evitar sequelas no bebê. Jusimara acredita que o obstetra chegou ao hospital quando Bárbara já estava morta.
Higo Moreira Fonseca foi preso em flagrante pela Polícia Civil, suspeito de homicídio e omissão de socorro. Segundo os policiais, ele tentou fugir ao ser abordado em casa, engatando marcha à ré. Uma policial sacou a arma para impedir a fuga. Após ser levado ao presídio, obteve liberdade provisória no dia seguinte, com medidas cautelares: comparecimento mensal à Justiça, proibição de deixar a comarca sem autorização, afastamento do Hospital São Francisco e suspensão da atuação na rede pública de obstetrícia.
Nota da defesa do médico
A defesa manifestou preocupação com informações incompletas e conclama cautela, destacando que a investigação está em fase inicial. Afirmou que a atividade médica em sobreaviso é regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina e que o contexto assistencial é complexo. Reiterou a presunção de inocência e confiança nas autoridades.
O sonho da maternidade interrompido
Bárbara estava grávida do primeiro filho, Augusto Manoel, e realizava o sonho de ser mãe. O quarto do bebê já estava montado e o enxoval completo. Jusimara conta que o filho está desolado, pois o pré-natal transcorria normalmente. "Era o sonho dela. Ela amava criança. O Augusto já era muito amado e muito desejado", disse emocionada.
O hospital não se manifestou até a última atualização da reportagem.



