Campinas e Piracicaba têm 15 mil pessoas sem paternidade na certidão
15 mil sem paternidade na certidão em Campinas e Piracicaba

As regiões de Campinas e Piracicaba, no interior de São Paulo, concentram 14.771 pessoas que não têm o nome do pai ou da mãe na certidão de nascimento, segundo dados da Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPE-SP). Desse total, 7.571 residem em Campinas, que lidera o ranking de crianças registradas apenas com o nome da mãe desde 2016.

História de Maria Aparecida: mais de 50 anos sem sobrenome

A ajudante de cozinha Maria Aparecida Pereira, de Piracicaba, ficou mais de 50 anos sem nenhum sobrenome na carteira de identidade nacional. Adotada na infância, ela descobriu que sua certidão de nascimento não tinha o nome do pai nem da mãe biológicos. Após procurar a DPE-SP, ela vai conseguir a atualização. "É bom saber a quem você realmente pertence", alegra-se. "Nem tinha sobrenome. Pereira eu tenho porque eu casei. Eu fui procurar a Defensoria porque, para a gente fazer esse DNA, eu com a minha mãe, a gente ia ter que pagar e a gente não tinha condições", detalha.

Durante o atendimento, Maria descobriu outros erros graves no documento: além de não ter filiação, ela havia sido registrada com o sexo masculino. "Daí, quando viram que o meu registro estava na situação que estava, sem nome de pai, sem nome de mãe, como masculino, a gente viu que precisava resolver aquela situação", conta a ajudante de cozinha. Maria aguarda a regularização dos documentos e pretende aproveitar a oportunidade para mudar de nome. "É gostoso você saber de onde você veio, a quem realmente você pertence. A minha família é adotiva, me deu amor, carinho, me ensinou a ser quem eu sou. [...] Falei: 'Já que eu vou mudar de vida, vou mudar de nome'. [...] Só estou esperando e acredito que até o final do ano a gente vai ter uma resposta", afirma, otimista.

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Números regionais: Campinas lidera casos de ausência paterna

Em Piracicaba, 2.381 pessoas não têm o nome do pai no registro de nascimento, aponta levantamento da Defensoria Pública de São Paulo. Em Limeira, são 1.738. Já na região de Campinas, as cidades de Campinas, Americana, Sumaré e Artur Nogueira somam 10.652 registros de nascimento sem o nome do pai desde 2016. Apenas em 2026, até 15 de julho, as quatro cidades contabilizaram 565 novos casos. Campinas lidera o ranking regional: 7.571 no total (410 em 2026), seguida por Sumaré (1.798; 81 em 2026), Americana (974; 60 em 2026) e Artur Nogueira (309; 14 em 2026).

Mutirão 'Meu Pai Tem Nome' oferece DNA gratuito

Para tentar mudar essa realidade, estão abertas as inscrições para a edição 2026 do mutirão nacional "Meu Pai Tem Nome". A campanha oferece atendimento gratuito para quem deseja reconhecer a paternidade formalmente, investigar o vínculo familiar ou regularizar o registro civil. Segundo a coordenadora da Defensoria Pública de Piracicaba, Carolina Brambila Bega, o reconhecimento da paternidade garante acesso a direitos básicos e fortalece os vínculos familiares. "Juridicamente, a inclusão na certidão de nascimento permite a regulamentação da convivência, permite a possibilidade de cobrar alimentos, também dá direito à herança e tem diversos outros aspectos, por exemplo, previdenciários, como pensão por morte", frisa.

As inscrições terminam em 30 de julho. Os interessados devem acessar a assistente virtual Júlia, no site da Defensoria Pública de São Paulo. O atendimento presencial ocorrerá no dia 1º de agosto, em mais de 60 postos do estado. Durante o evento, a Defensoria contará com equipes de cartórios e do Instituto de Medicina Social e de Criminologia (Imesc). Os serviços oferecidos incluem: exame de DNA gratuito na hora; reconhecimento voluntário de paternidade (biológica ou socioafetiva); acordos de pensão alimentícia, guarda e visitas; e orientação jurídica para abertura de ações judiciais.

Histórias de luta pelo reconhecimento paterno

A auxiliar de limpeza Andréia Pereira Barbosa, de Piracicaba, tenta há anos incluir o nome do pai no registro do filho mais velho. Ela conta que o ex-companheiro negou a paternidade assim que soube da gravidez. Andréia buscou a Defensoria Pública para fazer o exame de DNA, mas o homem não apareceu. Hoje, ela lida com as dúvidas da criança. "Marcou o exame para fazer pela Defensoria. Aí ele não compareceu. Ele [o filho] questiona, pergunta por que o pai dele não quis registrar ele", conta.

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A faxineira Fabiana Fernanda do Prado Rodrigues vive uma situação parecida. Dos quatro filhos, os dois mais novos têm apenas o nome da mãe na certidão. "Eles não quiseram registrar e falaram que não era deles", relata. Ela afirma que buscou a Justiça e tentou conversar com os pais das crianças, mas não conseguiu resolver o problema. Agora, espera conseguir o registro completo no mutirão. "Eu preciso que ele crie o registro do pai porque, na hora que ele crescer, ele vai falar: 'Eu tenho um pai', né?", diz.

Como participar do mutirão

As inscrições vão até 30 de julho pelo site da DPE-SP, com a assistente virtual Júlia. O atendimento presencial será em 1º de agosto, em mais de 60 postos no estado. Na região, haverá atendimento em Americana, Artur Nogueira, Campinas, Limeira, Piracicaba e Sumaré.