Piranguinho, em Minas Gerais, mantém viva a tradição do pé de moleque há mais de 90 anos. Reconhecido como patrimônio imaterial mineiro, o doce atravessou as transformações da cidade sem perder a essência da receita artesanal. Símbolo do município, saiu da antiga estação ferroviária, chegou à internet, sustenta cerca de 700 empregos e envolve 13 fabricantes locais, segundo dados da prefeitura.
Doce que atravessa gerações
Feito tradicionalmente com amendoim e rapadura, o pé de moleque passou de geração em geração e se tornou o principal atrativo turístico do município e um dos pilares da economia local. Os produtores encontraram novas formas de crescer sem abandonar a tradição. “Os desafios para o futuro são diferentes daqueles enfrentados no início da produção, em 1936, mas a essência continua a mesma: preservar nossa história sem deixar de evoluir. A procura pelo doce cresceu, novos mercados foram conquistados e a cidade se desenvolveu. O desafio é atender essa demanda sem perder a qualidade e a tradição que atravessam gerações”, afirma Sônia Torino, dona da Barraca Vermelha, uma das mais tradicionais da cidade.
Da estação ferroviária às barracas na rodovia
Durante décadas, a estação ferroviária foi o principal ponto de venda do doce em Piranguinho. Com o fim do transporte de passageiros, nos anos 1970, os produtores migraram para as margens da rodovia. As barracas coloridas se transformaram em cartão-postal da cidade e parada quase obrigatória para quem cruza a região. Morador de Lavras, Fabiano Maia, de 80 anos, mantém há cerca de 20 anos o hábito de comprar o produto. Ele lembra que conheceu o doce quando a estrada ainda não era asfaltada. “Foi amor à primeira mordida. De lá para cá, mantenho esse hábito. Agora, quando peço, tenho que dividir com os filhos e com os netos. E, quando não consigo ir, sempre peço para alguém que vá naquela direção comprar para mim”, conta.
Tradição que se reinventa: tecnologia como aliada
A internet e a tecnologia tiveram papel decisivo na expansão do pé de moleque para além das barracas às margens da rodovia. Na Barraca Amarela, a modernização permitiu ampliar mercados sem abrir mão da receita tradicional. “Sem dúvida. A internet e a tecnologia foram fundamentais para o nosso crescimento”, afirma Ana Paula da Silva, filha de seu Zezinho, fundador da Barraca Amarela. Segundo ela, o uso de redes sociais, site e canais digitais permite apresentar os produtos, a história e o dia a dia da empresa a clientes de diferentes regiões do Brasil. “Isso aproxima os clientes e permite que acompanhem tudo o que acontece em tempo real.” Além da divulgação, a tecnologia também transformou a gestão do negócio. A empresa passou a trabalhar com sistemas integrados, aplicativos de vendas e softwares de gestão que tornaram os processos mais ágeis e eficientes.
“Hoje, os distribuidores fazem os pedidos diretamente pelo aplicativo. Essas informações já entram no sistema, alimentam o controle de estoque, a programação da produção e o planejamento logístico, o que garante mais agilidade no atendimento”, explica. A adaptação aos novos tempos levou o pé de moleque para além das barracas. Hoje, o doce é vendido pela internet e chega a diferentes regiões do país. Em Campo Grande (MS), a empresária Karina Beltrão comercializa o produto da barraca vermelha em uma cafeteria. “Muita gente não conhecia o pé de moleque e acaba se apaixonando quando experimenta. Outros lembram das viagens em que passavam por Piranguinho para comprar o doce”, diz.
Entre o crescimento e a tradição
Para os produtores, a ampliação da produção e a conquista de novos mercados trazem um desafio permanente: crescer sem descaracterizar um doce que se tornou símbolo da cidade. Na Barraca Vermelha, a missão é manter viva a identidade construída ao longo de décadas. “Vivemos em um mundo que muda cada vez mais rápido, e nosso desafio é manter viva a tradição da Barraca Vermelha, levando nossos produtos para novas gerações, novos mercados e novos consumidores, sem perder aquilo que nos trouxe até aqui: qualidade, respeito às pessoas e amor pelo que fazemos”, afirma Sônia.
Na Barraca Amarela, fundada pela família de José do Carmo Silva, o Seu Zezinho, a estratégia tem sido crescer com organização, sem alterar a base do processo produtivo. A empresa emprega cerca de 117 pessoas e utiliza tecnologia na gestão e na distribuição, mas preserva a receita tradicional e o modo artesanal de preparo. “Manter a tradição não significa ficar parado no tempo. Significa preservar os valores e a identidade do produto mesmo enquanto a empresa cresce e se moderniza”, resume a direção.
Símbolo turístico e econômico
“O pé de moleque é mais do que um produto. É um símbolo da identidade do nosso povo e uma fonte de desenvolvimento econômico”, afirma o prefeito de Piranguinho, Paulo Renato Germiniani Ribeiro. Segundo ele, projetos de lei em tramitação buscam conceder ao município os títulos de Capital Mineira e Capital Nacional do Pé de Moleque, ampliando o reconhecimento da tradição em âmbito estadual e nacional. Além do período da festa, a cidade recebe visitantes ao longo de todo o ano. “O fluxo de turistas aumenta a demanda por hotéis, restaurantes, comércio e serviços, fortalecendo a economia local”, afirma Erika, secretária municipal de Turismo.
De Divinópolis, a cabeleireira Daniele Azevedo Campos conheceu Piranguinho por acaso durante uma viagem. Foi a primeira vez dela na cidade. “Desde a Revolução Industrial, parte da mão de obra foi substituída por máquinas. Mas a gente pode ver que a qualidade e o toque do que é feito à mão, que é tradição, não morrem. Já se passaram mais de 90 anos e as pessoas vêm de longe procurar esse doce tradicional de uma cidade pequena”, diz. Moradora da cidade, Sueli Aparecida Mendonça dos Santos, de 75 anos, acompanhou o crescimento da atividade. “A cidade cresceu, surgiram mais empregos e o turismo ficou mais forte. Muita coisa mudou, mas a tradição não enfraqueceu. Pelo contrário, parece que ficou ainda mais valorizada. As pessoas continuam vindo atrás daquilo que tornou Piranguinho conhecida.”
A tradição também é alimentada pelas histórias sobre a origem do doce. A vendedora Fabiana Noronha relembra uma das versões mais conhecidas. “Dizem que as crianças tentavam pegar os pedaços que ficavam esfriando na janela das casas. Aí alguém gritou: ‘não pega, moleque’, e o nome acabou ficando.” Segundo ela, mesmo com as mudanças, o modo de fazer continua sendo valorizado. “Pode ter evoluído, mas o jeito artesanal e o cuidado permanecem. Antes, as pessoas vinham até a cidade; hoje, é o doce que vai até elas.”
Festa do pé de moleque
Além de valorizar uma tradição que faz parte da identidade cultural de Piranguinho, a Festa do Maior Pé de Moleque do Mundo tem papel fundamental na economia local e no fortalecimento do turismo. O evento atrai visitantes de diversas cidades da região e de outros estados, movimentando hotéis, bares, restaurantes e o comércio em geral, além de divulgar o município nacionalmente como referência na produção do doce típico.
19ª Festa do Maior Pé de Moleque do Mundo
Serviço:
- Data: 12 a 14 de junho
- Local: Parque Municipal Luiz Vieira Neto, em Piranguinho (MG)
- Entrada: gratuita
- Atrações: shows ao vivo e programação cultural
Programação:
Sábado – 13/06
- 17h – Show de Pagode Pré-Jogo com o Grupo Vivência
- 19h – Transmissão do Jogo do Brasil no Telão
- 20h – Apresentação das Escolas do município
- 20h45 – Confecção do Maior Pé de Moleque do Mundo
- 23h – Show com a dupla Zé Ricardo & Thiago
- 01h – Show com a dupla Os Lucas
- 02h30 – Apresentação do DJ Rodrigo Barbosa
Domingo – 14/06
- 09h – Missa Campal
- 10h30 – Encontro dos Violeiros
- 14h – Desfile das Escolas
- 16h – Show com a Orquestra Mineira Extremamente Caipira
- 18h – Samba com o Grupo Confraria do Chapéu



