A região sudoeste do estado de São Paulo abriga formações geológicas de valor inestimável: os cânions paulistas. Estendendo-se por cerca de 260 quilômetros, desde Itapeva até o Paraná, essas paisagens foram esculpidas ao longo de milhões de anos pela ação de rios, ventos e intemperismo. Compostas por rochas areníticas que datam do período Devoniano (entre 410 e 390 milhões de anos), as escarpas e paredões são um testemunho da história geológica do planeta.
Origem e composição das rochas
Segundo a geóloga Victoria Gomes, de Itapeva, as rochas da região são arenitos formados pelo acúmulo de sedimentos em uma antiga bacia sedimentar. "A rocha, o termo que descreve ela é arenito. A gente tem rochas areníticas que são compostas por sedimentos, que são partículas de outras rochas que foram degradadas e foram acumuladas em uma bacia. Então essas rochas formam essa bacia. Elas têm entre 410 e 390 milhões de anos", explica. Com o tempo, essas camadas afloraram e passaram a ser moldadas pela natureza. "Os rios, os ventos e o intemperismo foram moldando essas rochas até chegarmos às paisagens que vemos hoje", complementa.
A formação é popularmente chamada de Escarpa Devoniana, embora o termo não seja tecnicamente exato. "Escarpa se diz ao termo geomorfológico, quer dizer que é a formação em si. E devoniana é a idade dessas rochas. Então, a escarpa não necessariamente é devoniana, mas é como ela é conhecida hoje", esclarece Victoria. A escarpa se estende por aproximadamente 260 quilômetros, de Itapeva até o estado do Paraná.
Biodiversidade e transição de biomas
A engenheira agrônoma e ambientalista Regina Celia Negrão Machado destaca que a região é uma zona de transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica, com altitudes que variam de 700 a 1.300 metros. "As formações dos cânions promovem diferentes altitudes. A gente sai de Itararé, que está a cerca de 700 metros acima do nível do mar, e chega a áreas com 1.300 metros de altitude. Isso gera uma enorme diversidade, tanto na formação dos solos quanto da vegetação", afirma. Essa variação altitudinal cria gradientes ambientais que abrigam desde solos rasos no alto dos paredões até solos profundos nas áreas mais baixas.
A vegetação é igualmente diversa, com remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado em diferentes formações, incluindo campos e cerradão. "Nas áreas mais altas, na beira dos paredões, encontramos formações quase rupestres e uma vegetação conhecida como Campos Gerais do Paraná. Itararé, por estar mais ao norte, ainda preserva remanescentes desse tipo de vegetação. Nesses ambientes também existem plantas endêmicas, que só ocorrem aqui e em nenhum outro lugar do mundo", explica Regina.
Fauna e ameaças à conservação
A região também é habitat de mamíferos de grande porte, como lobo-guará, tamanduá e onça, além de uma rica fauna menor. No entanto, a expansão da silvicultura, especialmente o cultivo de pinus, tem reduzido o habitat desses animais. "Encontramos muitos mamíferos de grande porte, como o lobo-guará, tamanduá e a onça, além de toda a fauna menor que serve de alimento para esses animais. Mas eles estão ficando cada vez mais confinados porque o território vem sendo ocupado, principalmente, pela silvicultura de pinus", alerta a ambientalista.
Patrimônio arqueológico e cultural
Além da riqueza natural, a área possui relevância arqueológica, com vestígios de ocupação humana pré-histórica. "Existiram muitos povos originários que passaram por essa região, que deixaram grutas. A gente tem registros de pontas de flechas, de diferentes materiais, além de pinturas rupestres", relata Victoria. Muitos desses sítios estão em propriedades particulares, o que dificulta a divulgação e a preservação. A Casa da Cultura de Itapeva abriga alguns artefatos, como pontas de flechas e vasos de cerâmica.
Regina pondera que o desconhecimento pode ser positivo para a preservação, pois evita a depredação. "Muita gente vai no intuito de depredar, vai no intuito de levar para casa, e a gente ainda não conseguiu conscientizar a população da importância da preservação desses ambientes", analisa.
Turismo responsável e atrativos
A região oferece diversas atrações turísticas, como cachoeiras, rios preservados e trilhas. A turismóloga Michelle Schroder ressalta a importância de visitar com guias especializados. "Todos os locais, além de alguns serem propriedades particulares, então, você estando com guia, tem uma segurança pra estar nessas propriedades. E são locais com risco, são cânions, são rios, tem muita peçonha", alerta. Ela recomenda planejar a visita e contratar empresas locais, respeitando as normas dos proprietários.
Entre as atividades disponíveis estão ecoturismo, aquatrek, boia cross, rapel e montanhismo. A região também possui dois quilombos que preservam história e tradição. "Recebemos desde turistas que vêm para pedalar nas trilhas até aqueles interessados nas cachoeiras, na história dos quilombos e na cultura local", afirma Michelle.
Experiência e documentário
Caminhar sobre os cânions proporciona uma experiência única. Victoria descreve a sensação: "Você entra num lugar, você encontra as pedras, assim, você anda no nível das pedras e há um relevo, a gente chama de relevo ruiniforme, como se formassem ruínas. E tem morrinhos, são diferentes feições que a gente vê ali e a amplitude do cânion é muito grande. Então você vê como a natureza é gigantesca e belíssima, e aí você se sente bem pequenininho".
Em 2023, a Associação Cânions Paulistas produziu a série documental "Patrimônio Cultural dos Cânions Paulistas", que resgata histórias e tradições dos sete municípios da região. Segundo Carolina de Arruda Botelho Klocker, integrante da associação, o objetivo foi mostrar como a paisagem influenciou o modo de vida local. "Em cada episódio, a gente entrevistou três personagens que representavam um pouco a cultura local. E o que a gente tentou mostrar é como a relação entre paisagem e homem está muito implicada", explica.



