Um teste realizado pelo GLOBO expôs a rapidez com que o algoritmo do TikTok pode direcionar conteúdo de facções criminosas a adolescentes. Em apenas 21 minutos, um perfil simulado de um jovem de 17 anos recebeu vídeos que romantizam e normalizam o crime organizado, fenômeno batizado de 'narcocultura digital'.
Como o teste foi conduzido
Os jornalistas criaram uma conta no TikTok com dados de um adolescente fictício e interagiram apenas com conteúdos genéricos de música e dança. Em menos de meia hora, o algoritmo sugeriu vídeos que exibiam símbolos de facções, músicas com apologia ao crime e imagens de armas. 'A velocidade é alarmante', afirma a pesquisadora em segurança digital Ana Paula de Oliveira, da Universidade de São Paulo. 'Mostra como o sistema identifica vulnerabilidades e explora interesses latentes.'
O que é a narcocultura digital
Especialistas definem a narcocultura digital como um conjunto de símbolos, músicas e narrativas que estetizam o universo do crime organizado. 'Ela transforma líderes de facções em ícones pop e associa status social à violência', explica o sociólogo Marcelo Santos, autor de 'Crime e Mídia Social'. Os conteúdos incluem desde clipes de funk que exaltam traficantes até memes que ridicularizam a polícia.
Impacto sobre os jovens
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 34% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já tiveram contato com algum tipo de conteúdo relacionado a facções nas redes. 'Isso contribui para a naturalização do crime e pode influenciar escolhas futuras', alerta a psicóloga infantil Carla Mendes. 'O jovem passa a ver o crime como uma opção viável de ascensão social.'
Resposta do TikTok
Em nota, o TikTok afirmou que removeu os vídeos apontados pelo GLOBO por violarem as diretrizes da plataforma, que proíbem 'conteúdo que promova atividades criminosas'. A empresa também destacou que investe em moderação e inteligência artificial para identificar esses materiais. No entanto, críticos apontam que a remoção é reativa e não impede que novos conteúdos surjam.
Desafios para a regulação
O caso reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais. O Ministério da Justiça informou que estuda medidas para coibir a propagação da narcocultura digital, incluindo a criação de um grupo de trabalho com representantes do governo, empresas e sociedade civil. 'Precisamos de regras claras e punições efetivas para quem lucra com esse tipo de conteúdo', defende o deputado federal João Almeida (PSB-SP), relator de um projeto de lei sobre o tema.



