A educação antirracista ainda é tratada como algo simplório, seja numa atividade em novembro, numa roda de conversa pontual, numa palestra sobre escravidão ou num livro inserido no currículo para cumprir calendário. Aí que surge o principal problema: enquanto a educação antirracista continuar sendo tratada como complemento e não como parte da estrutura escolar, estudantes negros seguirão sendo retraumatizados e estudantes não negros distantes de uma relação étnico-racial saudável.
O erro de reduzir a história à escravidão
Um dos maiores erros cometidos é acreditar que educação antirracista significa apenas ensinar sobre a escravidão no Brasil. Evidentemente, é impossível compreender a história sem olhar para esse processo violento e estruturante. No entanto, a história do povo negro não começa na escravidão e tampouco deixa de existir depois dela. Existe uma produção intelectual, cultural, filosófica, histórica, científica e afetiva anterior e posterior a esse período que continua sendo invisibilizada dentro das escolas.
Esse apagamento também aparece de forma concreta nos currículos escolares: levantamento da Associação Nova Escola mostrou que, embora 98% dos educadores considerem importante discutir racismo em sala de aula, apenas três em cada dez trabalham com autores negros em suas grades curriculares.
Impacto na autoestima e no futuro das crianças negras
Isso impacta diretamente a forma como crianças negras constroem perspectivas de futuro. Quando uma criança cresce sem referências positivas sobre si mesma, sem encontrar autores, cientistas, professores ou personagens negros que não estejam associados apenas à dor, à violência ou à exclusão, ela aprende silenciosamente que determinados espaços não foram pensados para ela. O imaginário social atua exatamente assim: ele define quem associamos ao protagonismo e quem ainda causa estranhamento quando ocupa espaços de prestígio.
Quando uma criança cresce sem ver pessoas parecidas com ela ocupando lugares de reconhecimento intelectual, liderança ou prestígio, ela passa a internalizar limites. Da mesma forma, quando a sociedade se surpreende ao ver uma pessoa negra em determinados espaços, revela-se um imaginário construído historicamente para associar corpos negros à subalternidade.
Formação de professores: um elo esquecido
Por isso, o trabalho por representação e proporcionalidade impacta diretamente na autoestima e no pertencimento. Mas a educação antirracista não pode se limitar aos alunos; ela também precisa alcançar quem forma esses estudantes. Quais autores, quais currículos e qual pensamento educacional fez parte da formação dos professores? Quem ensinou esses educadores a olhar para as relações raciais dentro da escola? A estes professores é dada a chance de aprender e vivenciar para tais conhecimentos e experiências? Não somente porque eles devem transmitir isso em sala de aula, mas porque eles próprios têm direito a isso, enquanto educadores e pessoas. A ausência desse debate na formação docente é um problema estrutural e os efeitos disso aparecem em diferentes dimensões da vida escolar.
Bolsas de estudo: acesso sem transformação
Nos últimos anos, muitas instituições privadas passaram a investir em bolsas de estudo como estratégia de inclusão racial. Considero esse movimento importante porque amplia acesso e ajuda a reparar desigualdades históricas. Mas o acesso, sozinho, não transforma estruturas. Na prática, o estudante negro passa a ocupar um espaço que ainda não foi preparado para recebê-lo. A instituição oferece acesso financeiro, mas, muitas vezes, mantém intactos seus imaginários e formas sutis de exclusão. Não raramente, esse aluno continua sendo tratado como exceção e automaticamente associado à falta de recursos financeiros. Esse tipo de exclusão é silenciosa, subjetiva e profundamente adoecedora.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2025 mostram que o índice de suicídio entre adolescentes e jovens negros no Brasil é 45% maior do que entre jovens brancos. É verdade que nenhum espaço conseguirá estar 100% pronto para garantir a inexistência de violências raciais e muitas coisas são aprendidas no processo, mas a pergunta que deixo é: será mesmo que a bolsa é o primeiro passo? Por que antes, por exemplo, a escola não define e implementa um aumento significativo de professores negros?
Pertencimento e permanência: além do acesso
Pertencimento. Permanência. Mesmo com bolsa, material e participação nas atividades escolares, muitos estudantes continuam atravessando ambientes que os fazem sentir deslocados ou constantemente lembrados de que aquele espaço não foi pensado para suas trajetórias. A violência, muitas vezes, está nos silêncios, nas expectativas reduzidas e na necessidade constante de provar pertencimento. Com o tempo, essas experiências moldam a forma como esses jovens se enxergam e projetam o próprio futuro.
Racismo não é bullying: diferenças estruturais
Também me preocupa muito a forma como as escolas ainda tratam racismo e bullying como se fossem equivalentes — não são. O bullying geralmente está ligado a disputas emocionais, relações individuais de poder e necessidade de reconhecimento social. Muitas vezes, quem pratica bullying já vivenciou algum tipo de violência anteriormente e reproduz esse comportamento buscando ocupar um lugar de força diante de uma plateia. O racismo, por outro lado, possui uma raiz estrutural e histórica, que define quais corpos foram legitimados em determinados espaços e quais continuam sendo vistos como exceção dentro deles.
Acredito que a principal pergunta que as escolas brasileiras precisam responder hoje é: estudantes negros estão sendo realmente considerados nesses ambientes ou apenas tolerados dentro deles? As famílias são aliadas? Há gestor, diretor, coordenador negro também? Já ouvi coisas como: “Mas é muita coisa para fazer ao mesmo tempo. Vamos começar aos poucos”. O problema é que o “aos poucos” não é pouco para quem paga, com a vida, o tempo do seu letramento ser construído. Eu tenho pressa.



