Em fevereiro de 2025, tratamos neste espaço de um problema estrutural que persiste sem resposta adequada: a desvalorização do docente universitário brasileiro e a ausência de um modelo sustentável de financiamento para as instituições de ensino superior. Desde então, o cenário ganhou novos contornos e, com eles, novos motivos para agir.
Proposta da USP: um passo inicial
A Universidade de São Paulo (USP) apresentou uma proposta recente de gratificação a docentes voltada a estimular ações de impacto que integrem ensino, pesquisa ou extensão. A iniciativa merece reconhecimento: toca num problema estrutural pouco enfrentado no Brasil, a retenção de talentos na universidade. Mas ela representa um passo inicial, não uma solução definitiva. Para produzir efeitos duradouros, é necessário ir além.
Dados alarmantes do ensino superior
Os dados mais recentes reforçam a urgência do debate. O Sisu 2026 evidencia que 95,8% das vagas do ensino superior estão na rede privada. Ao mesmo tempo, segundo levantamento da Catho, a remuneração docente no País varia, em média, entre R$ 4 mil e R$ 12 mil mensais. Esse intervalo contrasta de forma gritante com os padrões internacionais: nos Estados Unidos, a remuneração média de um professor universitário, sem verbas de pesquisa, chega a R$ 37.600 mensais; na Suíça, a R$ 67.500. Mais do que uma questão salarial, trata-se de uma questão de prioridade nacional.
Setor privado sem estímulos
O ponto central é que a proposta da USP não surgiu no setor privado, onde está a maioria das instituições e dos docentes do País. Em boa parte das universidades privadas, não há mecanismos estruturados de estímulo à produção acadêmica ou à captação de projetos. A remuneração continua vinculada quase exclusivamente à carga horária de aulas. Na prática, isso produz um resultado conhecido: a docência deixa de ser atividade principal e a universidade torna-se complementar a outras carreiras. A academia perde centralidade, o País perde capacidade de reter talentos científicos e emerge, inevitavelmente, o questionamento dos próprios alunos: “Professor, você trabalha ou só dá aula?”
Modelos internacionais de sucesso
Esse cenário contrasta com modelos internacionais nos quais ensino, pesquisa e financiamento caminham de forma integrada, criando ambientes mais atrativos e sustentáveis. Harvard possui um fundo de endowment superior a US$ 56,9 bilhões e captou US$ 6,8 bilhões em 2025. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, captou R$ 1,2 bilhão em projetos de pesquisa e extensão no mesmo ano. Esses números não são apenas expressivos. São demonstrativos de que é possível construir outro modelo, dentro do Brasil e para o Brasil.
Caminhos viáveis para a transformação
Não se trata de importar matrizes estrangeiras sem adaptação, mas de reconhecer que há caminhos viáveis. Reitores e gestores universitários têm papel decisivo nessa transformação. A universidade brasileira resiste em discutir com profundidade formas mais dinâmicas de financiamento e valorização profissional, e isso custa caro: talentos perdidos para o exterior, pesquisas não convertidas em inovação e alunos que não encontram sentido na vida acadêmica.
Condições para efeitos sistêmicos
Para que iniciativas como essa produzam efeitos sistêmicos, algumas condições são indispensáveis. A continuidade é a mais urgente: um prazo limitado de até 24 meses tende a enfraquecer qualquer política de incentivo à pesquisa antes que ela produza cultura institucional. Junto a isso, é preciso ampliar as fontes de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva do orçamento público e criando meios de captação junto a empresas, fundações e organismos internacionais. O corpo técnico-administrativo também precisa ser reconhecido nesse processo. São profissionais frequentemente invisíveis nos modelos de distribuição de resultados, mas fundamentais para o funcionamento das instituições. Os discentes precisam ser integrados: bolsas vinculadas a projetos fortalecem a formação e dão sentido à vida universitária numa realidade em que a sala de aula tradicional já não é suficiente.
Aspecto técnico da gratificação
Há ainda um aspecto técnico relevante: a gratificação vinculada a projetos não pode ser tratada como componente remuneratório ordinário. À semelhança das Bolsas de Produtividade do CNPq, ela deve ter uma matriz clara de bolsa, com isenção tributária e vínculo direto ao projeto específico. Essa distinção não é apenas burocrática. É fundamental para garantir a viabilidade jurídica e a atratividade do modelo.
Cooperação versus competição
A lógica competitiva que ainda predomina em muitos departamentos universitários compromete a cooperação e limita o potencial de inovação. Um modelo baseado em projetos compartilhados tende, ao longo do tempo, a transformar esses ambientes, tornando-os mais produtivos e saudáveis para se trabalhar.
Desafio para líderes universitários
A universidade brasileira já demonstrou sua capacidade de produzir conhecimento relevante. O desafio agora é criar as condições institucionais para que esse potencial não se disperse. Líderes das instituições de excelência têm tanto o diagnóstico quanto o caminho. A pergunta que permanece é a mesma que ficou em aberto desde 2016, quando o professor Jim Cavallaro, de Stanford, nos desafiou: quando o Brasil vai começar?



