Como educar crianças e adolescentes contra o vício em bets
Como educar contra o vício em bets em crianças e adolescentes

Jovens e apostas: um alerta para as famílias

A proximidade com o futebol, os games e o celular fez com que as bets, plataformas de apostas esportivas online, entrassem no universo de crianças e adolescentes com uma força que preocupa famílias e especialistas. O maior risco é a forma como as apostas esportivas são apresentadas, atraindo fortemente os jovens. A publicidade ostensiva online e offline, com influenciadores, medalhistas olímpicos, durante jogos de futebol, nas camisas dos times e nas redes sociais, normaliza as bets e as faz parecer saudáveis e divertidas.

Embora as bets sejam proibidas para menores de 18 anos, essa barreira nem sempre funciona. Em outubro de 2025, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelou que cerca de 33 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já haviam participado de algum jogo de apostas ao menos uma vez na vida. Entre os adolescentes de 14 a 18 anos, a taxa chegou a 10,9% — o equivalente a mais de um milhão de jovens.

Por que os adolescentes são mais vulneráveis?

O problema é que, na adolescência, regiões do cérebro ligadas ao controle dos impulsos, ao planejamento e à regulação emocional ainda estão em desenvolvimento. Justamente os mecanismos que ajudam a avaliar riscos e frear decisões precipitadas ainda não atingiram maturidade. Especialistas ouvidos pelo Estadão dão dicas para educar seus filhos contra o vício em bets e a notar sinais de alerta.

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Como a educação pode evitar o vício?

Ao Estadão, Gustavo Estanislau, psiquiatra da infância e da adolescência, disse que as famílias devem ter cuidado com o tom para abordar o problema e é essencial que acompanhem de perto as atividades das crianças e adolescentes em celulares e redes sociais. Além disso, o pesquisador do Instituto Ame Sua Mente enumerou 5 atitudes que devem ser adotadas pelos pais ou responsáveis ao abordar o tema:

  • Compartilhe relatos ou histórias de quem teve problemas com apostas, como perda de muito dinheiro, vício ou efeitos na saúde mental;
  • Não trate as apostas como algo divertido;
  • Fique atento à cultura de apostas de adultos dentro da família, isso também leva a uma naturalização para crianças e adolescentes;
  • Fale de riscos, mas com equilíbrio e bom senso. Ser alarmista pode fazer a criança ou adolescente ter medo de tudo ou, por outro lado, querer testar os pais;
  • Discuta educação financeira e fale do valor do dinheiro, de como ele é ganho e da importância de se poupar para o futuro.

Quais são os principais sinais de alerta para identificar o vício?

A ludopatia, o vício em apostas, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980. Segundo a OMS, o problema se agravou de forma “massiva e sem precedentes” com o aumento da oferta de plataformas online voltadas para as bets. Além do prejuízo financeiro, o vício em apostas pode causar “angústia e deficiência” nos casos mais graves, principalmente quando a pessoa abandona a saúde e o bem-estar para focar na compulsão.

A psicóloga Juliana Bizeto, autora do capítulo dedicado ao jogo patológico no livro Dependências Não Químicas e Compulsões Modernas (Editora Atheneu, 2016), explica que as apostas esportivas ativam áreas do cérebro relacionadas ao prazer, à recompensa e à expectativa. Nessa lógica, não é apenas o resultado final que importa. O simples fato de aguardar o desfecho de uma aposta já pode provocar uma sensação de excitação capaz de reforçar o comportamento. “Ao contrário do que o senso comum sugere, não é a vitória que sustenta o comportamento, é a possibilidade de vitória”, diz a psicóloga.

Veja 5 comportamentos que podem indicar o vício em apostas online nas crianças e adolescentes:

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  • Sentimento de angústia, tristeza ou ansiedade ao tentar se divertir ou sentir prazer, assistindo a uma partida de futebol, por exemplo, sem o ato de apostar;
  • Alteração de humor (irritabilidade, agitação ou tédio) quando tenta interromper o ciclo de apostas;
  • Mentiras: comportamento antissocial e negação do problema, com tentativas de minimizar a frequência das apostas até para as pessoas mais próximas;
  • Comportamento perigoso: arrisca aspectos e relações importantes da vida como finanças, progresso acadêmico ou relacionamento afetivo em favor das apostas;
  • Pensamento e planejamento constantes sobre os próximos atos de apostar.

“Demora mais ou menos um ano para a pessoa preencher os primeiros critérios que determinam como viciada em jogo, em termos de frequência e intensidade”, afirmou o psiquiatra Cirilo Tissot, especialista no tratamento de compulsões, em uma reportagem ao Estadão.

Como tratar o vício em apostas?

Assim como o tratamento de outros vícios, a compulsão por apostas é tratável, mas de forma multidisciplinar. O primeiro passo é buscar a ajuda de psicólogo ou psiquiatra, que poderá avaliar o quadro e recomendar ou não outras terapias. Alguns casos podem ser tratados com o uso de remédios para estabilizar o humor, diminuir a ansiedade e amenizar os sintomas da depressão. “Além disso, é preciso terapia para toda a família e pessoas envolvidas, porque o paciente passa a mentir”, apontou Fernando Gomes, neurocientista, professor no Hospital das Clínicas de São Paulo e colunista do Pulsa.

Além de terapias existentes no SUS, há 30 anos no Brasil, o Jogadores Anônimos é um caminho de apoio terapêutico coletivo que oferece reuniões e aconselhamento nas maiores capitais do País, com reuniões presenciais e online. O grupo segue o mesmo princípio dos Alcoólicos Anônimos, com 12 passos em busca da cura e abstinência.