As imagens recentes dos transtornos associados ao rompimento de infraestrutura na Rua Dona Avelina, na região do Parque da Aclimação, reacenderam um debate importante sobre o modelo de urbanização de São Paulo. A atenção pública se concentrou na falha imediata — uma adutora, canalização ou obra específica —, mas a questão é mais profunda: a forma como a cidade vem sendo urbanizada contribui para ampliar os riscos e os danos provocados por eventos extremos ou falhas de infraestrutura.
O caso emblemático do Córrego Pedra Azul
O caso é emblemático: a pressão sobre a canalização do Córrego Pedra Azul, que corre sob a via e alimenta o lago do Parque da Aclimação. Pouco conhecido pela maioria da população, o Pedra Azul integra a bacia hidrográfica que alimenta o Lago da Aclimação, um dos mais tradicionais parques da cidade. O lago funciona, na prática, como um regulador hidráulico de uma área urbana densamente ocupada, recebendo as águas de uma bacia que há décadas vem sofrendo sucessivas intervenções.
Ao longo do tempo, córregos foram canalizados, áreas permeáveis desapareceram, a cobertura vegetal foi reduzida e a impermeabilização avançou de forma contínua. Paralelamente, ocorreu um intenso processo de verticalização e adensamento construtivo, após a aprovação do zoneamento em 2016 e revisado em 2024, sem que houvesse avaliações integradas capazes de medir adequadamente seus efeitos acumulados sobre a drenagem urbana, a infraestrutura e o microclima.
Impactos visíveis de um processo silencioso
O resultado é um sistema cada vez mais pressionado. Quando ocorre uma chuva intensa, uma falha operacional ou o rompimento de uma tubulação, os impactos deixam de ser localizados e passam a atingir um território já fragilizado. O problema que aparece como um acidente isolado muitas vezes é apenas a manifestação visível de um processo silencioso de sobrecarga urbana.
A própria história do Lago da Aclimação oferece evidências dessa vulnerabilidade. Os episódios de rompimento e esvaziamento do lago em 2007 e 2009 demonstraram como alterações ocorridas em sua bacia hidrográfica produziram consequências significativas sobre todo o sistema.
Licenciamento individual ignora impactos cumulativos
A questão central é que São Paulo continua analisando empreendimentos individualmente, lote a lote, projeto a projeto, enquanto os impactos reais se acumulam na escala da bacia hidrográfica, da quadra e do território. É o que vem ocorrendo no quadrilátero na área de influência do Eixo Estruturação da Transformação Urbana (EETU) e respectiva ZEU no entorno da Estação do Metrô Vila Mariana: nas ruas Inácia Uchôa, Dona Brígida e Dona Avelina/praça Washington Pelúcio, Dona Ana e Bartolomeu de Gusmão.
A cidade discute o processo de verticalização por meio de cada novo edifício, mas o problema está na soma de centenas deles, e os impactos estão na transformação gradual da paisagem urbana. Discute-se o acidente nas fissuras da via, mas ignora-se o processo que produziu as condições para que ele ocorresse.
Fragilidade do planejamento urbano contemporâneo
O caso do Córrego Pedra Azul evidencia uma das maiores fragilidades do planejamento urbano contemporâneo: a ausência de avaliações cumulativas e estratégicas que prevejam e minimizem os efeitos da verticalização e da impermeabilização sobre a infraestrutura urbana e os sistemas naturais com a transformação de bairros horizontais em áreas densamente verticalizadas.
Em um cenário de mudanças climáticas, com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, essa lacuna torna-se ainda mais grave. Continuamos licenciando grandes projetos de verticalização isoladamente como se o território permanecesse o mesmo, quando, na realidade, a cidade está sendo transformada em velocidade muito superior à capacidade de adaptação de sua infraestrutura urbana e ambiental.
Consequências previsíveis de um modelo de ocupação
O problema não é apenas hidráulico, mas urbanístico. E enquanto essa discussão não for enfrentada, continuaremos tratando como acidentes aquilo que, cada vez mais, são consequências previsíveis de um modelo de ocupação urbana criado sem estudos ambientais preventivos e que produz riscos de forma permanente.



