Às vésperas de celebrar 365 anos neste 22 de junho, Santarém, no oeste do Pará, registra a perda irreversível de espaços naturais e arquitetônicos que formaram sua identidade. Ao longo das décadas, antigas fortificações militares, praias de rio tradicionais, centros clássicos de cultura e casarões coloniais desapareceram da paisagem.
As alterações geográficas e estruturais ocorreram sistematicamente, reconfigurando o uso do solo e a dinâmica da população. Esses locais de memória foram gradualmente substituídos por complexos portuários, comércio varejista e novas infraestruturas urbanas.
Reflexões sobre a transformação
Para Cristóvam Sena, fundador e coordenador do Instituto Cultural Boanerges Sena (ICBS), o processo reflete o próprio avanço do tempo. "As gerações de hoje não viram a Santarém da minha geração. Essa transformação é contínua na vida, é uma eterna mudança", reflete o pesquisador sobre a evolução do traçado urbano. Já para o historiador Alenilson Ribeiro, a data exige avaliação e resgate histórico. "Comemorar esse aniversário de Santarém é também podermos parar e fazermos uma reflexão sobre o nosso patrimônio, nossos monumentos, prédios antigos e espaços de lazer", avalia.
Praia Vera Paz
A tradicional Praia da Vera Paz foi aterrada e descaracterizada entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000, permitindo a instalação do terminal graneleiro da Cargill. Até o final dos anos 1990, o local era uma extensa faixa de areia branca, equipada com cabanas de palha e frequentada por milhares de santarenos aos finais de semana para banho no Rio Tapajós. A partir de 2000, com a construção do terminal portuário de grãos e a posterior reestruturação da área, a praia desapareceu. Hoje, a paisagem é dominada pelas estruturas mecânicas do porto, silos, embarcações cargueiras e pelo trapiche do Bosque Vera Paz. Segundo Sena, a supressão não gerou revolta imediata, pois a população "foi se acostumando". O pesquisador relembra também o fim da Coroa de Areia e de outros espaços de lazer na frente da cidade que sofreram erosão. "Eu jogava bola onde hoje é o Mascotinho. Ali era um campo de pelada tradicional nosso que sumiu."
Panificadora Lucy
Localizada estrategicamente em frente ao antigo trapiche municipal, a antiga Panificadora Lucy ocupava um casarão de marcante arquitetura colonial portuguesa no centro histórico. Além de referência visual, o estabelecimento construiu forte memória afetiva, famoso pelos pães embrulhados e sorvetes que marcaram gerações de santarenos. Ribeiro destaca a importância desses vínculos sociais no espaço urbano. "Nós amamos aquilo que conhecemos, preservamos aquilo em que criamos laços. São os nossos casarões e nossas memórias desses lugares", pontua o historiador.
Após funcionar como ponto de referência, o casarão histórico enfrentou anos de ostracismo, permanecendo completamente fechado e sem uso comercial entre 1999 e o final de 2011. Durante esse período de abandono, o prédio sofreu severa deterioração estrutural, com o desabamento parcial do teto e das divisórias internas, o que deixou em pé praticamente apenas as paredes de alvenaria originais e os azulejos da fachada colonial. A transformação do espaço em hotel gerou intensos protestos populares e de movimentos culturais em 2014, resultando no embargo temporário das obras de demolição interna por órgãos ambientais, devido à falta de licenciamento e à descaracterização do patrimônio tombado. Após adequações no projeto para preservar a fachada externa, a estrutura deu origem ao atual Hotel London, cuja recepção e pórtico de entrada ocupam hoje o local, abrigando também uma compacta sorveteria, também batizada de Luci em homenagem, voltada ao fluxo turístico da orla.
Cine Olympia
O Cine Olympia marcou gerações na Avenida Siqueira Campos, nº 250, ao lado da Praça da Matriz, no Centro Histórico de Santarém. O espaço foi inaugurado em 1927 sob o nome de Cine Guanabara. Construído originalmente em madeira e com capacidade para 600 pessoas, o local exibia filmes mudos acompanhados por trilhas sonoras tocadas ao vivo por músicos locais. Em 1937, com a chegada do cinema sonorizado na cidade, o prédio foi arrendado pelo alemão Albert Meschede. O estabelecimento passou a se chamar temporariamente Cine Rex para destacar a nova tecnologia ao público. A tradicional família Loureiro assumiu o comando definitivo em 1947, demolindo a velha estrutura de madeira. No lote, ergueu-se um edifício de alvenaria, reinaugurado em 28 de setembro como Cine Olympia, com o filme "O Sinal da Cruz".
Um curto-circuito na fiação da tela provocou um incêndio de grandes proporções no dia 4 de setembro de 1971. O interior foi destruído, mas o empresário Raul Franklin Loureiro assumiu a reconstrução total do espaço meses depois. Pressionado pelo avanço do videocassete e pela crise dos cinemas, o local fechou em maio de 1986. A sessão de despedida exibiu o filme "Operação Dragão", com Bruce Lee, para uma sala com lotação esgotada. O prédio foi completamente integrado à dinâmica comercial do centro. Suas dependências internas foram modificadas para dar lugar a várias lojas de varejo e comércios tradicionais, restando apenas o formato externo geral da estrutura histórica na rua.
Para Sena, o declínio foi um fenômeno inevitável. "Quando chegou a televisão, tudo tu passas a assistir em casa", explica. O pesquisador guardava com carinho a memória daquele espaço cultural. "Eu tinha um caderno em que anotava todos os filmes que eu assisti em Santarém", relembra Sena sobre o período de ouro das salas de cinema. Para Ribeiro, a extinção desse formato cultural deixou uma lacuna na cidade. "É muito triste pensar que tivemos cinemas como o Olímpia e o Acácia e que acabaram desaparecendo. São tantos filmes, histórias e memórias", afirma.
Fortaleza do Tapajós
O Forte dos Tapajós, também conhecido como Forte da Sardinha, foi erguido no século XVII em um ponto estratégico de Santarém. A estrutura militar ficava no alto de um morro com vista para o rio, área que hoje delimita os bairros Aldeia e Prainha. A construção iniciou em 1693 sob o comando do português Francisco da Costa Galvão e prosseguiu sob coordenação do seu filho. A inauguração ocorreu por volta de 1697, embora os registros históricos apontem que a fortificação nunca foi totalmente concluída. Relatos descrevem uma imponente muralha de 22 braças de frente para o rio e impressionantes 13 palmos de espessura. O forte contava com canhões coloniais instalados com o objetivo de repelir invasões estrangeiras e rebeliões locais.
A icônica muralha original resistiu parcialmente em pé até o final da década de 1960. Entre 1967 e 1971, os remanescentes da fortaleza foram demolidos pelo governo para abrir espaço para a construção do Grupo Escolar Frei Ambrósio. Em 2018, a Prefeitura atendeu a um pedido do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTap) para valorizar a memória do município. O espaço foi rebatizado oficialmente como Praça Fortaleza do Tapajós, homenageando o passado colonial e o povo indígena. Como parte do resgate patrimonial, os canhões históricos que pertenciam à fortificação original foram restaurados e reinstalados no mirante da praça. Hoje, o armamento secular serve como monumento fotográfico para os visitantes. Recentemente, em 2025, o local passou por novas obras de modernização promovidas pela gestão municipal. A intervenção renovou a infraestrutura urbana com calçadas acessíveis, iluminação moderna, nova pintura e projeto de paisagismo.
Sena considera a área um dos grandes tesouros do município, ideal para observar o Encontro das Águas. No entanto, ele lamenta que a visão panorâmica original tenha sido parcialmente obstruída pela construção de novos prédios. "O maior símbolo de Santarém é o Encontro das Águas. Precisamos fazer dali um espaço agradável para passar um final de tarde e contemplar esse monumento natural", defende o coordenador do ICBS.
O Castelo
Construído em 1905, o edifício conhecido como "O Castelo" foi um dos monumentos mais imponentes de Santarém. O casarão ficava localizado estrategicamente na esquina da Travessa dos Mártires, próximo à Praça da Matriz. Na época de sua edificação, a Avenida Tapajós não possuía a extensão contemporânea. O prédio repousava na linha d'água original do rio, antes das obras de aterramento e contenção que criaram o atual cais de arrimo. A arquitetura, projetada por um engenheiro português, era considerada avançada e incluía um trapiche flutuante. Essa plataforma facilitava o desembarque direto de mercadorias trazidas de navios da Europa e de grandes centros brasileiros. Propriedade de um rico comerciante, o local mesclava residência familiar e um centro comercial inspirado em lojas francesas. O andar térreo oferecia artigos finos divididos em seções, voltados para a elite social da cidade. Pela influência do dono, o espaço chegou a abrigar a sede do vice-consulado de Portugal. Com o passar das décadas, o edifício assumiu diversas outras funções, operando como pensão, hospedaria e depósito comercial.
Descrito como um "ícone veneziano" por Mário de Andrade, o prédio sofreu com a falta de conservação ao longo do tempo. Em 1981, o engenheiro Manuel Canté Filho assinou um laudo técnico sugerindo a demolição por falta de solidez estrutural. Após o desabamento parcial do teto no início de 1982, a Justiça determinou a destruição imediata da estrutura. Em maio do mesmo ano, tratores derrubaram o casarão em definitivo, sem deixar ruínas físicas no centro histórico. O terreno original na esquina da Avenida Adriano Pimentel com a Travessa dos Mártires foi integrado à área comercial da Orla de Santarém. Atualmente, o lote abriga edificações comerciais modernas de alvenaria, situadas no perímetro central da cidade, próximo a restaurantes, hotéis e ao calçadão da Orla.
Cristóvam Sena avalia que a perda de edifícios como este reflete uma falha histórica. "Não houve o tombamento necessário para evitar a pressão imobiliária. Houve uma incúria das autoridades, e a cidade mudou bastante com isso", aponta.
Preservação e Futuro
O apagamento físico dessas áreas evidencia o desafio contínuo de conciliar o avanço econômico com a preservação da memória municipal. As transformações que moldaram o atual traçado urbano da cidade deixaram para trás partes fundamentais da história santarena. Alenilson Ribeiro alerta que a substituição de espaços é uma dinâmica estrutural da sociedade, mas requer equilíbrio. "Seria importante a gente ter os antigos e os novos. Precisamos entender tudo isso como patrimônio", destaca. O pesquisador defende que a proteção efetiva exige o fortalecimento dos conselhos municipais e a inclusão desse debate nas escolas. "É na sala de aula que os alunos vão aprender a conhecer e valorizar as histórias dos mais velhos."
"A vantagem de se manter a história é que você tem capacidade de olhar para trás, ver o que foi feito de errado e corrigir", argumenta Sena, ressaltando a importância dos arquivos históricos. Ele alerta que a responsabilidade pela preservação não é apenas governamental. "A consciência tem que vir também da população. Nós precisamos ter essa consciência de preservação, porque senão não adianta." Relembrar essas ausências no marco de 365 anos de fundação funciona como um registro essencial da evolução geográfica local. O debate reforça a urgência de proteger o patrimônio material santareno que ainda resiste ao tempo.



