Vídeo sobre rotina em carvoaria alcança 13,7 milhões de visualizações
Um registro despretensioso da rotina de trabalho pesado no interior do Tocantins tornou-se um fenômeno digital com mais de 13,7 milhões de visualizações. Jéssika Borges, de 33 anos, internacionalista formada em Ciências Policiais e Relações Internacionais em Portugal, viu sua vida mudar após mostrar que recebia R$ 0,16 por cada saco de carvão ensacado ao lado do pai, em Almas, no sudeste do estado.
Trajetória de superação
Natural de Almas, Jéssika viveu por 14 anos na Europa. A rotina braçal, que a coloca em contato direto com a fuligem, foi inicialmente uma estratégia de sobrevivência emocional para enfrentar o luto e evitar a depressão após a perda do noivo. Mesmo com a visibilidade após a primeira viralização e os mais de 130 mil seguidores conquistados, ela detalha como o trabalho ensacando carvão e outras atividades foram fundamentais para sua saúde mental.
"Todo meu tempo livre eu tentava ocupar para não ficar deprimida em casa. [...] Eu estava muito mal lutando para não continuar em depressão. A vida continua. Se não nos apegarmos às coisas importantes que ficam, ficamos paralisados pela dificuldade", afirmou Jéssika.
Rotina atual e divisão do trabalho
Atualmente, Jéssika mantém uma jornada dupla que concilia o setor administrativo com a lida no campo. Durante as manhãs e até o início da tarde, trabalha no escritório de uma empresa. "Não tenho personagem, mostro o que faço no dia a dia. É uma fonte de renda complementar, mas também uma forma de ajudar minha família", explicou.
No processo de ensaque, ela atua em equipe, geralmente em trios, dividindo tarefas de encher e grampear os sacos. Segundo Jéssika, o valor total pago pelo ensaque é de R$ 0,50 por unidade, mas dividido por três pessoas: "Na verdade são 50 centavos por saco, mas aí são três pessoas: duas enchendo e uma grampeando. Para o serviço render, a gente divide esses 50 centavos por três, o que dá os 16 centavos".
Remuneração e debate sobre precarização
A produção diária de um grupo experiente varia entre mil e 1,2 mil sacos. "Dá uma média de uma diária de R$ 120 a R$ 160. Isso está acima do que as pessoas em fazendas ou outros serviços pagam aqui na região, onde a diária gira em torno de R$ 70 a R$ 100. Parece muito pouco, mas se multiplicar pelos sacos, você tira um dinheirinho bom para a realidade local", afirmou.
Ao ver o pai, Narcizo Marcos, contratar ajudantes para o serviço em um feriado, ela decidiu participar. "Ele me disse que, se eu quisesse, me pagaria o mesmo que pagava para os outros rapazes. Eu ajudei o dia inteirinho", contou a jovem.
Fiscalização e condições de trabalho
Órgãos de fiscalização trabalhista utilizam critérios técnicos para identificar irregularidades em ambientes como carvoarias, lavouras e outros setores produtivos. Entre os principais pontos avaliados estão alojamento, acesso a água potável, condições sanitárias, jornada de trabalho e segurança. Em operações de combate ao trabalho análogo à escravidão, equipes do Ministério do Trabalho e Emprego (MPTE) podem aplicar autuações, resgatar trabalhadores e encaminhar relatórios ao MPTE.



