Em Ribeirão Preto (SP), duas famílias transformaram o rock em pilar da educação dos filhos, indo além do entretenimento. Nesta segunda-feira (13), Dia Mundial do Rock, o g1 ouviu pais que afirmam: a paixão pelo gênero passou de forma natural para as crianças, com benefícios no desenvolvimento.
Thomas: do vinil à bateria
Na casa do músico Beto Leonetti e da escritora Silvia Ueno, o filho Thomas, de 7 anos, trocou canções infantis por bandas clássicas. Desde bebê, o convívio com acordes virou estímulo para se expressar e interagir. A influência começou na gestação: Beto tocava rock em uma viola caipira perto da barriga de Silvia para acalmar o bebê. Após o nascimento, os pais mantiveram o estilo na rotina, com vídeos de shows de AC/DC, Pink Floyd e Metallica. A imersão foi tamanha que, com apenas 1,5 ano, Thomas aprendera a mexer na vitrola da família. “Ele pegava um banquinho, procurava na coleção de discos, pegava o 'Dark Side of the Moon', do Pink Floyd, e colocava com o maior cuidado do planeta. Eu não respirava com medo de ele estragar a agulha. Mas era muito lindinho”, relembra a mãe.
Thomas cresceu frequentando shows do pai e tentou tocar bateria para copiar os ritmos de ídolos como Neil Peart, do Rush. “Ele gostava muito de ver a banda Rush tocando com o Neil Peart, que é um monstro. E era isso que ele conseguia reproduzir na bateria que ele via”, conta Beto. A atenção redobrada ajudou na criatividade: o garoto usa materiais recicláveis e papelão para criar brincadeiras e inventa palavras para cantar. “Ele ganhou uma pistola de cola quente e fica criando coisas o dia inteiro. A gente percebeu que a criatividade dele aflorou muito na tentativa de evitar aquela solução fácil da tela de celular”, diz Silvia. A conexão familiar rendeu frutos profissionais: Silvia escreve livros e produz conteúdos sobre educação infantil, e o casal produziu músicas educativas com pegada rock and roll, com Thomas na bateria.
Eduardo: nome de ídolo e sofá de palco
Na família da professora Nayara Kobori e do vocalista Renato Rosa, a realidade é parecida. O casal escolheu o nome do filho Eduardo, de 2 anos, em homenagem aos roqueiros Edu Falaschi (Angra) e Supla. “A gente sempre gostou muito do Edu Falaschi, do Angra, e do Supla. Os dois chamam Eduardo. Quando descobri que estava grávida, a gente já tinha certeza do nome”, conta Nayara. Após o nascimento, os pais perceberam a facilidade do menino para lidar com sons altos. Eduardo passou a frequentar as apresentações de Renato e não se intimida com locais cheios. Sua playlist diária mistura canções da Disney com sucessos da banda de metal cômico Massacration. A brincadeira principal em casa é copiar os movimentos do pai nos palcos. “Teve um dia que nós tiramos as almofadas do sofá de casa para lavar e ficou como se fosse um palco. Ele catou a guitarrinha de brinquedo dele, subiu no sofá e começou a tocar e cantar, para imitar o Renato”, conta a mãe.
A convivência nos shows também é especial para Renato. “Ter ele no palco comigo ou no público é sempre um gás que me dá para estar lá em cima e fazer o show acontecer cada vez melhor. Eu acho que junta duas coisas que eu amo muito: meu filho e a música. Ver ele comigo assim é realmente projetar o futuro. De repente, tocar junto com ele lá na frente vai ser uma coisa muito emocionante”, diz o vocalista.
Benefícios comprovados pela ciência
Diretor musical e professor da School of Rock de Ribeirão Preto, Daniel Junta explica que a musicalização infantil exige movimentos cerebrais simultâneos. “O contato com os instrumentos e os ritmos trabalha a audição, a visão, a leitura e a memória ao mesmo tempo. Quando a criança está tocando um instrumento, tudo isso está interligado. Colabora demais, não somente no aspecto musical, mas também no estudo regular e na disciplina”, afirma. Segundo ele, a musicalização gera aumento da confiança própria e melhora a interação em grupos, atuando em três pilares: ritmo, melodia e harmonia. Crianças a partir dos 2 anos já conseguem absorver os estímulos por meio de atividades dinâmicas.
Nayara nota os efeitos no dia a dia de Eduardo: ele tem aulas de música na escola e, segundo os professores, é o aluno que mais presta atenção e interage. “O neurodesenvolvimento da criança que tem contato com a música é diferenciado. Ativa outras partes do cérebro, tanto a parte sonora quanto a parte cognitiva e de desenvolvimento motor. A gente sente que ele se acalma melhor”, diz a mãe.
O futuro nos palcos
Embora Thomas afirme que quer ser biólogo quando crescer, os pais garantem apoio total se o caminho mudar para os palcos. “Se ele decidir ser músico, vou virar empresária dele. A criatividade é algo que tem que ser incentivado”, brinca Silvia. Para Renato, a herança musical já é motivo de realização. “Hoje em dia ele tem o privilégio de ter uma condição melhor e acessibilidade. Se ele quiser, vai ter muitas oportunidades para voar longe”, conclui.



