Nesta terça-feira (14), Campinas (SP) completa 252 anos, e o g1 investigou 25 histórias que fazem parte do imaginário da cidade, reunidas em um infográfico interativo em formato de iceberg. O resultado separa fatos de mitos sobre personagens, lendas urbanas e curiosidades da metrópole. A seguir, algumas das investigações reveladas pela apuração.
O mistério do Pavilhão 18 da Unicamp
A suposta existência de um laboratório secreto na Unicamp surgiu após o Caso Varginha, em 1996. Segundo pesquisadores da ufologia, as criaturas vistas em Minas Gerais teriam sido levadas pelo Exército para Campinas, para análise em uma área de acesso restrito da universidade, conhecida como 'Pavilhão 18'. Thiago de Souza, idealizador do projeto 'O que te Assombra?' e pesquisador da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (Abec), explica que a narrativa indica que o espaço funcionaria no Instituto de Química, destinado ao armazenamento e estudo de seres extraterrestres, com segurança militar no local.
Trinta anos depois, a história voltou à tona na série documental 'O Mistério de Varginha'. O médico legista Fortunato Antônio Badan Palhares afirmou que recebeu um telefonema informando que deveria permanecer no laboratório porque o Exército levaria 'um material vindo de Varginha' para análise. 'Esse material não chegou até hoje', declarou Badan, que não soube identificar quem fez a ligação e não se recorda de ter sido informado de que o material seria um extraterrestre.
A Unicamp nega qualquer relação com a história. Em nota, a universidade afirmou que 'esse tema continua repercutindo e acaba alimentando uma narrativa sobre algo que nunca existiu e não existe dentro da Unicamp'. A instituição reconhece que o assunto desperta curiosidade e faz parte do imaginário popular, mas gera uma demanda recorrente para esclarecer situações 'que não têm fundamento e que nunca fizeram parte da Universidade'. Reportagem da EPTV revelou que a área do subsolo apontada como local do laboratório secreto era, na verdade, uma casa de máquinas com tubulações de água quente para o hospital da universidade.
Túnel da Fepasa e suas lendas
Construído em 1918 para ligar o Centro à Vila Industrial, o Túnel de Pedestres da Fepasa tem cerca de 200 metros de extensão e é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc). Sua escuridão e isolamento deram origem a várias lendas. A mais antiga, segundo Thiago de Souza, é a do Velho do Guarda-Chuva, muito conhecida nas décadas de 1950 e 1960. A história conta que um homem morreu afogado durante uma enchente e passou a aparecer em uma das entradas do túnel, enquanto uma mulher misteriosa surgia na outra extremidade; ambos caminhavam um em direção ao outro e desapareciam ao se encontrarem no meio da passagem.
Nos anos 1990, outra lenda ganhou força: o Fantasma do Holofote. A aparição surgia diante de quem já havia passado do chamado 'ponto de não retorno', correndo em direção aos pedestres com uma luz intensa, iluminando o caminho, cegando as pessoas por instantes e atravessando seus corpos antes de desaparecer. Mais tarde, a história ganhou uma versão menos assustadora: em vez de perseguir, o homem do holofote passou a ser descrito como um fantasma que carregava uma lamparina para iluminar o caminho de quem iniciava a travessia, desaparecendo ao chegar perto da saída.
Personagens marcantes: Aldo Chioratto, Gilda e Mané Fala Ó
O escoteiro Aldo Chioratto tinha 9 anos quando morreu durante um bombardeio à antiga Estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em 18 de setembro de 1932, na Revolução Constitucionalista. Ele levava mensagens entre o comando militar no Largo do Rosário e a estação ferroviária. No dia do ataque, estava de folga e esperava um trem ao lado da mãe quando foi confundido com um soldado por um piloto da aviação federal, que lançou uma bomba sobre o local. Aldo morreu na hora. Em 1966, seus restos mortais foram levados para o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, onde é a única criança homenageada. Em Campinas, dá nome a uma rua e ao núcleo histórico responsável pelas cerimônias do feriado de 9 de Julho.
Geovina Ramos de Oliveira, a Gilda, ganhou o apelido após assistir ao filme 'Gilda' (1946), estrelado por Rita Hayworth. Entre as décadas de 1940 e 1970, ficou conhecida por andar pelo Centro usando vestidos chamativos, chapéus, estolas de pele e faixas de 'miss' ou 'rainha'. Frequentava desfiles de 7 de Setembro, acompanhava a banda na Praça Carlos Gomes, ia ao Teatro Municipal e aos jogos do Guarani, onde usava a faixa de 'Miss Bugre'. Gostava de inventar histórias sobre a própria vida, dizendo ser viúva do cantor Francisco Alves, amante de Getúlio Vargas e noiva de Orestes Quércia, que anos depois lhe doou uma casa popular. Internada em um hospital psiquiátrico em 1950, voltou a Campinas após a alta e retomou a rotina pelas ruas. Morreu em 1974 e inspirou pesquisas, obras de artistas e um documentário.
João Lopes de Camargo, conhecido como Mané Fala Ó, nasceu em 1931 e começou a circular pelo Centro ainda jovem, fazendo pequenos serviços e vendendo jornais. Ficou conhecido pelo bordão 'Menina, fala ó pra mim', repetido para as mulheres que encontrava. Quando recebia a resposta, seguia o caminho. Apesar da abordagem curiosa, era querido por moradores e comerciantes. Mané morreu em 23 de dezembro de 2003, aos 72 anos, após ser atropelado no Centro. Foi sepultado no Cemitério da Saudade, onde uma placa lembra sua história, que também inspirou homenagens culturais.



