As ruas, os becos, as bicas d’água e os grandes escadões do bairro Dom Bosco, em Juiz de Fora, guardam histórias e uma riqueza cultural que deram origem ao projeto 'Museu de Território Dom Bosco'. A iniciativa busca valorizar a identidade e a trajetória da comunidade, funcionando como um museu vivo e sem paredes, em que as próprias galerias são formadas pela arquitetura e pela ocupação urbana da periferia.
Museu de Território: um inventário coletivo
O museu foi resultado de um inventário coletivo feito pelos moradores em parceria com os cursos de Turismo, História e Arquitetura da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Na fase atual, o grupo se dedica ao inventário do bairro, com o mapeamento das principais práticas culturais existentes no território do Dom Bosco e consideradas relevantes para a formação da identidade da população. As atividades têm avançado principalmente nas áreas conhecidas como Chapadão e Morro dos Cabritos.
Primeiro tour: rotas de afeto e mobilidade popular
No primeiro tour, realizado em junho, os participantes conheceram como a comunidade se adaptou e construiu diferentes formas de ocupação e moradia, além de escadões e soluções populares de mobilidade. O trabalho também destacou a rota das águas, que inclui poços, bicas e nascentes fundamentais para a sociabilidade local. O roteiro também integrou locais de memória e afeto indicados pela própria comunidade.
"A forte presença da população negra na formação histórica do bairro, as relações de sociabilidade marcadas pela busca por água e pela espiritualidade, além de processos de violência simbólica e urbana, foram elementos que permitiram identificar o potencial do território", explicou o coordenador do projeto e professor do curso de Turismo, Edwaldo Sérgio.
Racismo ambiental em debate
A ocupação do bairro também serviu de base para debater o conceito de racismo ambiental, relacionado à exposição desproporcional de populações negras e de baixa renda a riscos de desastres. "Depois da Abolição, os negros libertos foram confinados aos morros íngremes, às várzeas alagadiças e aos terrenos instáveis", explicou a professora Raquel Von Randow, da Faculdade de Arquitetura da UFJF. Segundo a docente, dados demográficos de Juiz de Fora mostram que áreas de risco concentram uma população majoritariamente negra e famílias chefiadas por mulheres. "A catástrofe de fevereiro foi a expressão mais violenta dessa realidade", apontou a professora.
Espiritualidade, união e empoderamento
A união dos moradores foi um dos pontos destacados na iniciativa. Eliana das Neves Pereira, conhecida como Doca, ressaltou a importância do projeto para fortalecer a autoestima da comunidade. "A gente aprendeu muita coisa com os avós e a mãe da gente. Esse museu veio para guardar isso. A gente vai poder resgatar, em cada ponto da nossa comunidade, o que foi aqui, o que vai crescer, como é hoje. As crianças que eu cuido vão poder saber", afirmou a moradora.
Outra liderança comunitária, Jade Dias, destacou a união entre os moradores e o clima de convivência no bairro. "Aqui nós somos uma comunidade unida. Católicos, espíritas ou evangélicos, não tem divisão. As crianças brincam na rua e as casas ficam abertas, ninguém mexe. Temos uma tranquilidade e uma paz. Apesar de ser uma comunidade carente, a gente mantém o respeito uns pelos outros", contou Jade.
Jade Dias também destacou a atuação das entidades locais no desenvolvimento social e na valorização das moradoras do Dom Bosco. "A Aban completou 29 anos no Dom Bosco e promove o empoderamento das mulheres negras, incentivando-as a sair do casulo, fortalecer a autoestima, buscar atividades de produção e perder a timidez. Isso fez a gente criar um grupo em prol da comunidade", disse Jade Dias.
Parcerias e próximos passos
A iniciativa foi desenvolvida por pesquisadores e extensionistas do Grupo de Educação Tutorial (GET) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF, em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia Americana (Maea), o Departamento de Turismo, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) e moradores do bairro. A ação também recebeu apoio de redes locais, como a Aban e a associação de moradores. A parceria resultou em atividades de extensão, ensino e pesquisa que envolvem cerca de 25 pessoas, entre professores, estudantes de graduação e moradores. A metodologia foi inspirada em museus de território já consolidados no país, como o Museu da Maré e o Museu das Remoções, no Rio de Janeiro, e o Muquifu, em Belo Horizonte.
Conforme o coordenador Edwaldo Sérgio, locais de relevância histórica e manifestações culturais das regiões do Chapadão e do Morro dos Cabritos já foram mapeados pela equipe. Nos próximos meses, pesquisadores e moradores devem ampliar o levantamento cultural para as regiões da Grota e do 511.



