Em poucos minutos, criminosos realizam uma série de assaltos em semáforos da Zona Norte do Rio de Janeiro, aproveitando o tempo em que os veículos ficam parados. O sinal fecha, os carros param e a tensão começa. Em cruzamentos como o da Rua Pará com a Rua Teixeira Soares, na Praça da Bandeira, e o entorno da estação de metrô de São Cristóvão, moradores e motoristas convivem com o medo constante.
Modo de agir dos criminosos
As imagens mostram que os criminosos abordam os motoristas em questão de segundos, levando celulares, joias e outros pertences. Em um sábado à noite, um homem de casaco e capuz aborda um carro cinza e obriga motorista e passageiros a entregar os pertences. Em seguida, tenta atacar um veículo ao lado, que consegue escapar, e ainda ameaça um táxi antes de fugir por um posto de combustíveis. Dias depois, no mesmo cruzamento, uma dupla tenta assaltar outro motorista, que acelera e foge. Minutos mais tarde, os criminosos voltam e conseguem roubar os ocupantes de um veículo prata. Antes de deixar o local, um dos assaltantes ainda retorna, mas desiste da nova abordagem e corre em direção ao viaduto do metrô.
Três minutos, dois roubos
Na noite mais recente registrada pela reportagem, em apenas três minutos, dois roubos foram flagrados. Três criminosos cercaram um carro branco, renderam motorista e passageiro e levaram os pertences. Logo depois, atacaram outro veículo. Em uma câmera instalada nas proximidades, é possível ver quatro motoristas avançando o sinal vermelho para escapar dos assaltantes.
Guarda Municipal e a sensação de insegurança
A reportagem acompanhou o movimento no cruzamento da Rua Pará com a Rua Teixeira Soares durante o horário de funcionamento da faixa reversível. Enquanto agentes da Guarda Municipal permaneciam no local, o trânsito seguia normalmente. Segundo moradores e comerciantes, o cenário muda assim que a operação termina e os guardas deixam o cruzamento. “Depois é só a gente e Deus”, resume o vendedor Gustavo Rezende. Segundo ele, os criminosos abordam motoristas, assaltam passageiros de aplicativos e fogem atravessando a Radial Oeste em direção à Mangueira.
Quem passa diariamente pelo trecho também relata preocupação. “Esse sinal fica muito tempo fechado. À noite, realmente é preocupante. Mesmo com a Guarda Municipal, eles não estão em todos os lugares. Tem que manter o vidro fechado, guardar o celular e ficar atento”, afirma o comerciante Guilherme Brainer. Motorista de aplicativo, Valnei Farias diz que orienta todos os passageiros a esconderem o celular antes da parada no semáforo: “Eu sempre ando com o vidro levantado e o ar-condicionado ligado.”
Sinal fechado por até cinco minutos
Uma câmera de monitoramento da Prefeitura está instalada sobre o cruzamento. Durante o período em que a equipe permaneceu no local, o sinal ficou fechado por cerca de cinco minutos para os motoristas. Segundo técnicos da CET-Rio, esse tempo pode variar de acordo com as condições do trânsito.
Relatos em São Cristóvão
A cerca de 500 metros dali, em frente à estação de metrô de São Cristóvão, motoristas, passageiros e trabalhadores afirmam conviver com o mesmo problema. “Chega aqui, os caras enquadram e dizem: ‘Perdeu’. Aí é só rezar”, conta o motociclista de aplicativo Jeremias Valente. No mês passado, uma tentativa de assalto registrada por um motorista viralizou nas redes sociais. Quatro homens cercaram um táxi parado no sinal, bateram nos vidros e tentaram render motorista e passageiros. Assim que o semáforo abriu, o taxista acelerou e conseguiu escapar.
Taxista há anos, Marcelo Bavier diz que dirigir pela região exige atenção constante. “Antes de chegar ao sinal, você tem que olhar para todos os lados, no retrovisor, na frente e nas laterais. Porque, provavelmente, você vai ser surpreendido.” O porteiro Genilson Silva, que faz baldeação diariamente em frente ao metrô, afirma que os assaltos seguem um padrão. “Quando o sinal fecha, eles vêm e dão o bote. Aqui não tem segurança nenhuma.” A inspetora Jaqueline Santos reforça a percepção: “Raramente vejo patrulhamento aqui.”
Dados oficiais mostram redução, mas moradores ainda reclamam
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que a região que abrange São Cristóvão e Praça da Bandeira registrou 891 roubos de rua entre janeiro e maio de 2026, uma redução de 27% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 1.222 casos. Durante a gravação da reportagem, a equipe viu uma viatura da Guarda Municipal e dois policiais militares em motocicletas circulando pela região. Mesmo assim, usuários do transporte público afirmam que a sensação de insegurança permanece, principalmente nos pontos finais de ônibus próximos ao metrô. Para o motorista de ônibus Fabiano de Jesus, a presença permanente de agentes poderia reduzir os crimes. “Os passageiros reclamam muito. Se colocassem equipes da Guarda Municipal fixas aqui, melhoraria muito.”



