De aplicativos a casamentos: histórias de amor que venceram luto e distância no Sul de Minas
Amor em apps: casais superam luto e distância e se casam

Em São Lourenço, no Sul de Minas Gerais, dois casais provam que um simples deslizar de tela em aplicativos de relacionamento pode levar a casamentos, mudanças de cidade e novos recomeços. Apesar de pertencerem a gerações diferentes, ambos encontraram o amor por meio da tecnologia, transformando conexões virtuais em vínculos duradouros marcados por superação, afeto e reconstrução.

Recomeço após a perda

A professora aposentada Ester de Azevedo Corrêa Assumpção, de 54 anos, perdeu o marido, com quem viveu por 27 anos, no início da pandemia. A solidão a levou a criar um perfil em um aplicativo voltado para pessoas acima dos 50 anos. Foi lá que conheceu o auditor federal aposentado Luis Carlos da Silva, de 63 anos, que morava em Lumiar (RJ), enquanto ela vivia no Méier, bairro da capital fluminense.

Em apenas 15 dias, eles se encontraram pela primeira vez e decidiram levar a relação adiante. No início, a decisão gerou receio na família, mas, com o tempo, o relacionamento passou a ser acolhido pelos filhos. O casal também enfrentou momentos difíceis: quando Ester foi diagnosticada com câncer, Luis esteve ao lado dela durante todo o tratamento, que durou cerca de 18 meses.

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“Somos do Rio, mas como minha irmã mora em São Lourenço há 20 anos, eu sempre amei essa cidade. Quando fiquei viúva, justamente na pandemia, fui ficar na casa dela. Foi um momento de dor, mas também de recomeço”, conta Ester. “Quando decidimos casar, compramos um apartamento em São Lourenço. Também faço o acompanhamento do câncer na cidade, que acabou se tornando o nosso lar”, resume o casal, que oficializou a união em 29 de dezembro de 2023.

Para Luis, o investimento no aplicativo foi simbólico diante do resultado: “Foi o nosso melhor investimento. Paguei um pacote de três vezes de R$ 49,90 e ganhei uma esposa para a vida toda.”

Um 'like' que atravessou países

A história da mineira Vanessa Guedes Sommar, de 32 anos, e do americano Steven Scott Sommar, de 31, também começou de forma inesperada. Ela hesitou antes de dar o “match” ao perceber que ele era estrangeiro. “Quando vi que era um americano que estava há poucos meses no Brasil, pensei duas vezes antes de curtir. Na verdade, quase não dei match, mas depois pensei: ‘por que não?’”, lembra Vanessa.

O primeiro encontro aconteceu em uma pizzaria, em Resende (RJ), e foi marcado por nervosismo e situações engraçadas causadas pelas diferenças de idioma e cultura. Pouco tempo depois, a pandemia separou o casal. Steven voltou para os Estados Unidos, e os dois passaram a se falar diariamente por videochamadas. “As chamadas eram longas, às vezes de duas horas. Era quando a gente compartilhava a rotina e matava a saudade. Aquilo virou a melhor parte do meu dia”, relembra Steven.

Mesmo com o contato frequente, a distância trouxe incertezas, e eles chegaram a se separar. O reencontro, durante uma viagem em 2021, reacendeu o relacionamento. Desde então, o casal passou a viver entre aeroportos, fusos horários e adaptações constantes. No fim do ano passado, veio o pedido de casamento, e eles oficializaram a união no dia 30 de maio.

Conexões que vão além da tela

As duas histórias mostram como os aplicativos de relacionamento têm atravessado gerações e se tornado cada vez mais presentes na formação de novos relacionamentos. Para a psicóloga Camila Thayara dos Santos Amor, esses espaços ampliam as possibilidades de encontro, especialmente em momentos de transição.

“Os aplicativos ampliam o círculo social e facilitam encontros que talvez não acontecessem fora do ambiente presencial. Isso é especialmente relevante em momentos de transição da vida, quando as redes sociais naturais podem estar mais reduzidas ou em transformação. Ao mesmo tempo, essas conexões podem atender a necessidades emocionais importantes, como pertencimento, companhia e apoio”, explica.

Segundo ela, a idade deixou de ser uma barreira rígida nas relações. “Na maturidade, muitas pessoas têm mais clareza sobre o que buscam em uma relação e conseguem se posicionar de forma mais assertiva. Isso pode favorecer vínculos mais conscientes e alinhados, desde que haja comunicação e disponibilidade emocional para construir essa relação também fora do ambiente virtual.”

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“Se não tivesse dado aquele match, talvez nossas histórias nunca tivessem se cruzado. Hoje, a gente vê que valeu a pena arriscar, porque foi ali que começou tudo o que estamos construindo juntos”, dizem Vanessa e Steven.