O cheiro do amendoim cozido invade as ruas do bairro Queimadinha nas primeiras horas da manhã, anunciando a chegada do São João em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia. No bairro, a produção da iguaria vai além da culinária junina: representa a principal fonte de renda de dezenas de famílias e uma tradição que atravessa gerações. Ao longo dos anos, o trabalho deixou de ser sazonal e passou a integrar a rotina de centenas de pessoas que vivem do preparo e da comercialização do produto, desde o cozimento em grandes panelas até a venda nas ruas e pontos comerciais.
Comerciante aprendeu ofício com a mãe e mantém tradição familiar
Um dos comerciantes mais antigos na atividade é Adevaldo Moreira, conhecido como Vata do Amendoim. Há 46 anos no ramo, ele contou à TV Subaé que aprendeu o ofício com a mãe e transformou a venda em profissão. "Isso veio da mãe. Foi ela quem me ensinou e já vem de geração. A gente começou a trabalhar desde muito novinho. Como a gente não conseguiu estudar direito, tinha que trabalhar. Hoje, meu filho e minha esposa também trabalham com isso. A minha profissão é essa aqui", disse o comerciante.
Segundo ele, a produção aumenta significativamente no período de São João, quando as encomendas se intensificam. "No mês de junho, a produção aumenta mais. Aí eu compro uns 10 ou 15 sacos para cozinhar, porque tem muita encomenda para fazer". A rotina começa antes do amanhecer: ele acorda entre 3h30 e 4h da manhã para iniciar o preparo, garantindo que o produto esteja pronto para abastecer os vendedores logo cedo. "Sai quentinho da panela aqui para a banca. Tem cliente de todo canto, até do Ceará, que leva o amendoim para lá. Já tem gente que liga antes para fazer encomenda para a véspera de São João", contou Vata do Amendoim.
Tradição movimenta a economia local e é reconhecida pelo poder público
O amendoim é vendido durante todo o ano, mas os meses de maio, junho e julho concentram os melhores resultados para os comerciantes. No Caminho Rondônia, uma das localidades da Queimadinha, pelo menos 20 famílias têm na atividade sua principal fonte de renda. A importância econômica da tradição é reconhecida pelo poder público. A secretária municipal de Trabalho, Turismo e Desenvolvimento Econômico (Settec), Márcia Ferreira, afirmou ao g1 que a relação entre a Queimadinha e o amendoim é histórica. "Quando se fala em Queimadinha e amendoim é porque ainda existe lá uma estrutura que foi construída para beneficiar as pessoas que trabalhavam com a venda do produto. A comercialização do amendoim é uma tradição nossa, independente do São João ou do São Pedro. É algo que acontece o ano inteiro", ressaltou. Márcia destacou ainda que a venda representa uma importante fonte de subsistência para muitas famílias feirenses.
Galpão comunitário fortaleceu a atividade, mas atualmente está desativado
Parte dessa tradição foi fortalecida com a criação de um galpão comunitário inaugurado pela prefeitura em 2007, no próprio bairro. O espaço foi construído para organizar uma atividade que, até então, era realizada em panelões montados nas ruas da Queimadinha. Em períodos de maior movimento, como o São João, as 35 bocas de cozimento do galpão chegaram a funcionar sem parar para atender a demanda. Dados divulgados pela prefeitura apontavam que cerca de 300 sacas de amendoim eram beneficiadas diariamente no local. Na época, mais de 60 famílias estavam cadastradas na associação de comerciantes e aproximadamente 200 pessoas atuavam na venda do produto pelas ruas de Feira de Santana. Segundo a secretária, atualmente a estrutura não está em funcionamento devido a pedidos dos próprios moradores, que relataram atos de vandalismo no local. Ainda assim, o espaço continua sendo um símbolo da importância econômica e cultural da atividade para o bairro.



