Papai Noel vira sanfoneiro: artesão troca vermelho por xadrez no São João
Papai Noel vira sanfoneiro no São João na Paraíba

Todo mês de dezembro, ele ocupa um lugar especial nas vitrines, nos centros comerciais e, principalmente, no imaginário das crianças. Vestido de vermelho, barba branca impecável e sorriso acolhedor, o Papai Noel se torna um dos personagens mais queridos do ano. Mas quando o Natal fica para trás e junho chega ao som da sanfona e do cheiro de milho cozido, surge uma curiosidade: o que o Papai Noel faz durante o São João?

Na Paraíba, a resposta passa pela história de Zemilton Feitosa, artesão de 69 anos nascido em Sousa, no Sertão do estado, e que há três décadas dá vida ao bom velhinho. Nordestino apaixonado pelas tradições da sua terra, ele troca temporariamente o vermelho pelo xadrez, mas continua carregando a mesma missão: espalhar alegria. “O São João tem uma importância tão grande no Nordeste como o Natal tem para o pessoal do Sul e do Sudeste”, resume.

Uma brincadeira que virou missão de vida

Com 30 anos de atuação como Papai Noel, Zemilton se tornou uma figura conhecida por onde passa. A barba branca e a aparência que lembra o personagem fazem com que ele seja reconhecido durante todo o ano. “Onde eu vou, o pessoal me chama de Papai Noel. Em mercado, na praia, em qualquer lugar. As crianças olham e dizem: ‘Papai Noel está de férias’. Eu me sinto muito orgulhoso por isso”, conta.

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A história começou em 1995, quando Zemilton morava em Campinas, no interior de São Paulo. Na época, ele era voluntário em uma instituição de caridade. Mesmo sem a tradicional barba branca, já chamava atenção das crianças. “Elas me confundiam por causa das minhas bochechas. Minha barba era preta, mas mesmo assim me chamavam de Papai Noel”, lembra.

Foi naquele ambiente que viveu uma cena que mudaria sua trajetória. Uma criança se aproximou dele logo após o Natal e fez uma reclamação que ele nunca esqueceu. “Eu estou de mal com você porque todo ano eu peço um trenzinho e você me dá um carrinho”, ouviu. A espontaneidade da fala arrancou sorrisos, mas também despertou algo maior. Incentivado pela direção da instituição, ele aceitou interpretar o personagem em uma festa de fim de ano. O que seria apenas uma experiência temporária se transformou em uma missão para a vida inteira. “Eu comecei e nunca mais parei. Enquanto vida tiver, eu vou levar isso para frente”, afirma.

Desde então, passou a dedicar grande parte do seu trabalho voluntário a crianças com deficiência, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social. “Cada ano que passa, o Papai Noel está mais vivo. Principalmente quando você vê o brilho nos olhos de uma criança. É um sentimento que nunca acaba”, diz.

No São João a roupa muda, mas a missão continua

Se em dezembro Zemilton espalha o espírito natalino, em junho ele dedica os dias a outra paixão: as fogueiras artesanais iluminadas que produz manualmente. O artesanato surgiu como alternativa às fogueiras tradicionais de madeira, cada vez mais restritas nos centros urbanos. Utilizando materiais recicláveis, ele encontrou uma maneira de manter viva uma das imagens mais simbólicas das festas juninas. “É um trabalho feito com muito carinho. Para mim, é uma alegria ver o resultado”, afirma.

As fogueiras são produzidas a partir de tubos de papelão descartados por clínicas, caixas de televisão reaproveitadas, embalagens plásticas e outros materiais que ganham nova vida pelas mãos do artesão. Segundo ele, cerca de 70% da estrutura é feita com material reciclável. Cada peça exige horas de trabalho. Algumas chegam a utilizar centenas de pequenas tiras de papelão para reproduzir os detalhes dos troncos de madeira. O projeto começou de forma simples, quase como um teste. Ao longo dos anos, foi sendo aperfeiçoado até se tornar uma marca registrada do artesão paraibano. “A maior realização é saber que o meu trabalho leva alegria onde está. Isso não tem preço”, diz.

Entre a compaixão do Natal e a alegria do São João

Ao longo da conversa com o g1, Zemilton demonstra que guarda um carinho especial pelas duas festas mais populares do calendário brasileiro. Para ele, cada uma desperta sentimentos diferentes, mas igualmente importantes. “O São João é alegria, festa e comida típica. O Natal é mais amor, compaixão e união”, compara.

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Entre uma fogueira iluminada e outra, entre o vermelho do Natal e o colorido das bandeirinhas, ele segue sendo o mesmo personagem que conquistou gerações de crianças ao longo dos últimos 30 anos. Um Papai Noel que não desaparece quando dezembro termina. Na Paraíba, ele continua presente durante todo o ano celebrando tradições, espalhando afeto e provando que a magia pode ter sotaque nordestino e vestir xadrez durante o São João.