Por que confederados derrotados nos EUA escolheram o Brasil
Confederados derrotados nos EUA escolheram o Brasil por escravidão

Os confederados derrotados na Guerra Civil dos Estados Unidos escolheram o Brasil como destino principalmente porque a escravidão ainda era legal no país sul-americano, aliada à oferta de terras e incentivos do governo imperial. A conclusão é do professor Célio Antônio Alcântara, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que pesquisa a imigração confederada desde a década de 1990 com base em documentos históricos de cartórios de Santa Bárbara d'Oeste (SP).

Escravidão como fator determinante

Segundo Alcântara, inventários, escrituras e processos judiciais revelam que muitos dos confederados que migraram eram ex-senhores de escravos. A vinda para o Brasil tinha como objetivo preservar a posição social e econômica baseada no trabalho compulsório. Junto com Cuba, o Brasil estava entre os últimos países do mundo a manter a escravidão legalizada, o que o tornava uma alternativa para os confederados preservarem o modelo econômico e social das grandes plantações de algodão.

Cartas enviadas por sulistas a consulados brasileiros antes da imigração mostravam preocupação com o preço dos escravos, a legalidade da escravidão e até a possibilidade de trazer antigos escravizados libertos nos Estados Unidos. "A escravidão era legal [no Brasil] e havia essa disponibilidade de terras, o que, obviamente, era uma condição para a reprodução das condições pré-guerra civil", explicou Célio.

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Números da imigração

Estima-se que cerca de 3.691 norte-americanos desembarcaram no porto do Rio de Janeiro entre 1864 e 1874, dos quais aproximadamente 800 se estabeleceram em Santa Bárbara d'Oeste. Pesquisas em cartórios de Campinas (SP) e Santa Bárbara d'Oeste identificaram entre 180 e 200 escravizados transacionados por americanos. Segundo a Unicamp, eles eram responsáveis por cerca de um terço das compras de escravos registradas na cidade entre 1866 e 1887.

Versão dos descendentes

A Federação dos Descendentes de Americanos (FDA) não reconhece a versão de que os confederados vieram para o Brasil em razão da escravidão. A federação acredita que a vinda foi incentivada pela produção de algodão e pela oportunidade de recomeçar. A FDA enfatiza que essa história tem cerca de 170 anos, repudia qualquer forma de discriminação ou racismo e destaca que sua atuação é restrita ao cuidado com o Cemitério dos Americanos, criado por preconceito religioso à época.

Violência e extremismo

Alcântara afirma que obras memorialistas e narrativas de descendentes tendem a minimizar a escravidão, alegando que os imigrantes eram "bons senhores" e tinham uma relação paternalista. No entanto, documentos desmentem essa suposta harmonia e revelam uma estrutura rígida focada em manter o antigo status social dos EUA. "Parte da historiografia memorialista vai negar o papel da escravidão dentro da comunidade (...) Mas quando se observa a aquisição tanto de terras quanto de escravizados no Brasil, a gente percebe que há ali para um conjunto, principalmente para os líderes, condições acima da média local", explicou.

Recepção brasileira

O Brasil se tornou o destino ideal ao oferecer terras para o trabalho compulsório, com apoio de políticos entusiastas como Tavares Bastos e visitas pessoais do Imperador Dom Pedro II aos recém-chegados no Rio de Janeiro. No interior paulista, a comitiva foi recebida com banquetes, foguetes e bandas tocando o hino do Sul dos EUA em cidades como Araraquara e Botucatu. No entanto, houve tensões: fazendeiros brasileiros esperavam que os americanos servissem como mão de obra, mas os estrangeiros vieram para ser senhores de terras; houve resistências da Igreja Católica, como a do vigário de Santa Bárbara, que tentou desencorajar a venda de propriedades aos imigrantes por serem protestantes. O governo imperial apoiou a vinda sob uma perspectiva eugênica, preferindo o "elemento branco anglo-saxão". "A imigração confederada vai ser entendida como bem-vinda em razão desse aspecto, ou em razão de uma determinada perspectiva eugenista racial", concluiu o pesquisador.

Festa dos descendentes

Neste ano, a celebração dos descendentes de imigrantes norte-americanos em Santa Bárbara d'Oeste retornará após sete anos, marcada para 4 de julho, sob novas regras que proíbem o uso de símbolos de apologia ao racismo, incluindo a bandeira confederada.

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