Quando a memória falha, o afeto ainda sustenta uma relação. É o que mostra a rotina de Daniel, 88 anos, diagnosticado com Alzheimer, e Gladys, 81, que convive com demência. O casal vive em uma residência geriátrica em Dois Irmãos, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e tem conquistado milhares de pessoas nas redes sociais com registros feitos pela filha, Andréa Fonseca, de 56 anos.
Registros que viralizaram
Andréa transformou a vivência familiar em conteúdo para TikTok e Instagram. "Eu sempre gravei eles, desde antes. Sempre registrei, mas viralizou mais desses dois anos pra cá em função da doença e do tratamento", conta. O impacto vai além dos números: "Tem muitas pessoas que se acham culpadas por deixarem os seus pais em lar geriátrico, mesmo não abandonando. E eu mudei isso para muitas pessoas", afirma.
Mudança forçada pela enchente
A ida para a casa geriátrica não foi planejada. O diagnóstico de Alzheimer de Daniel veio no fim de 2023. Meses depois, ele começou a ter crises de agressividade e desorientação. Gladys também apresentava agravamento da demência. A enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024 agravou a situação. "Foi o pior momento das nossas vidas", resume Andréa. Sem energia, água e rede de apoio, manter os pais em casa tornou-se inviável. "A gente jamais tinha pensado nisso, mas não tinha o que fazer. O meu pai foi primeiro, e depois a minha mãe disse que queria estar com ele e também foi", comenta.
Acompanhamento qualificado
Na residência, o casal tem acompanhamento integral com cuidadores, equipe de saúde, fisioterapia e rotina estruturada — fatores essenciais para quem convive com demência e Alzheimer. "Não é onde eles estão que vão deixar de ter amor. A gente entende que esse momento é o que eles mais precisam de apoio, de cuidado 24 horas", explica Andréa. Segundo ela, antes de chegar ao local ideal, o casal passou por outras instituições, até encontrar um modelo que evitasse a troca constante de profissionais, que gerava confusão mental. "Eles têm que ter a rotina, eles têm que saber a pessoa que vai lá todo dia", afirma.
Fragmentos de memória e afeto
Antes da doença, Daniel era militar da aeronáutica e trabalhou até os 80 anos. Mantinha rotina ativa com cavalos, cachorros e a casa. Mineiro de origem, gostava de música e tradições gaúchas. Mesmo com a memória comprometida, ele ainda reconhece as filhas, os irmãos e o cachorro Campeiro, que o acompanhou por anos. Em um vídeo recente, Andréa registrou o reencontro do pai com o animal, que não via há muito tempo. O reconhecimento foi imediato. "Ele jamais esqueceu do Campeiro, mesmo com Alzheimer", revela. A publicação alcançou quase 400 mil visualizações.
Gladys e o refrigerante
Gladys, formada em Jornalismo, sempre escreveu e mantém um livro inacabado. Segundo a filha, ela segue com personalidade forte, bem-humorada e criativa. Um dos vídeos mais vistos no perfil de Andréa mostra as reações de Gladys, que ama refrigerante, sempre que recebe a bebida da filha. A publicação ultrapassa 3 milhões de visualizações.
A história do casal mostra que, mesmo diante das limitações impostas pelo Alzheimer e pela demência, o amor e o afeto podem resistir, inspirando milhares de pessoas a enxergar a velhice e o cuidado com mais humanidade.



