Um agricultor do interior do Ceará vive um drama inusitado: ao perfurar um poço em busca de água, encontrou petróleo. O que poderia ser uma descoberta promissora tornou-se um pesadelo, com prejuízos financeiros e a possibilidade de abandonar o sítio onde mora há décadas.
Descoberta inesperada
José Maria da Silva, de 58 anos, morador do município de Iracema, a 300 km de Fortaleza, decidiu perfurar um poço artesiano em sua propriedade para garantir água para a plantação e o gado. No entanto, a surpresa veio quando, a 120 metros de profundidade, jorrou uma mistura de água e petróleo. O agricultor conta que, inicialmente, pensou se tratar de água suja, mas o cheiro forte e a consistência oleosa logo revelaram a verdade.
Prejuízos acumulados
Desde a descoberta, há cerca de três meses, Silva enfrenta uma série de problemas. O poço, que custou R$ 15 mil para ser perfurado, está inutilizável para irrigação. A água contaminada com petróleo não pode ser consumida por humanos ou animais, e as plantações de milho e feijão foram perdidas. O agricultor estima um prejuízo total de mais de R$ 50 mil, incluindo o custo do poço e a perda da safra.
Além disso, o petróleo que vazou do poço contaminou o solo ao redor, e Silva teme que a situação se agrave com as chuvas, espalhando o contaminante para áreas vizinhas. Ele já procurou a prefeitura local, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), mas até agora não obteve solução.
Falta de apoio
Silva reclama da demora dos órgãos competentes. A ANP informou que enviará uma equipe para avaliar o poço, mas ainda não há data. A prefeitura de Iracema disse que não tem recursos para lidar com o problema. O agricultor se sente abandonado e cogita deixar o sítio, onde vive com a esposa e três filhos.
“Eu queria era água para trabalhar. Agora, tenho um poço de petróleo que só me dá prejuízo. Se não houver solução, vou ter que vender o sítio e ir embora”, desabafa.
Impacto ambiental
Especialistas alertam que o vazamento de petróleo pode causar danos ambientais de longo prazo. O solo contaminado pode levar anos para se recuperar, e há risco de contaminação do lençol freático. A situação é ainda mais preocupante porque a região é dependente da agricultura familiar.
O caso de Silva não é isolado. No Ceará, já foram registrados outros poços que encontraram petróleo, mas em menor escala. A ANP afirma que está monitorando a situação, mas a falta de infraestrutura e recursos dificulta a ação rápida.
O que dizem os órgãos
Procurada, a ANP informou, por nota, que “está ciente do ocorrido e tomará as providências cabíveis, incluindo a possível interdição do poço e a avaliação de impactos ambientais”. A Cogerh, responsável pela gestão de recursos hídricos, disse que o poço não está em sua base de dados, pois foi perfurado sem autorização. Já a prefeitura de Iracema afirmou que “não possui competência técnica para lidar com petróleo” e que aguarda orientação dos órgãos estaduais e federais.
Enquanto isso, o agricultor tenta sobreviver com a ajuda de vizinhos e parentes. Ele já pensa em desistir da propriedade que herdou do pai. “É triste, mas não vejo outra saída. Se eu soubesse que ia encontrar petróleo, nem teria perfurado o poço”, conclui.



