66,8% veem crime como principal problema do Brasil; Lula e Flávio divergem
66,8% veem crime como principal problema do Brasil

Pesquisa Latam Pulse, realizada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, revela que 66,8% da população brasileira aponta a criminalidade e o tráfico de drogas como o principal problema do país. O levantamento, divulgado em maio, evidencia a crescente preocupação com a violência, que se torna tema central na disputa eleitoral de 2026.

Estratégias distintas de Lula e Flávio Bolsonaro

Os dois principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto adotam caminhos opostos para dialogar com esse eleitorado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca construir uma agenda baseada em inteligência policial, combate ao financiamento das facções e integração entre órgãos públicos. Já o senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta em propostas de endurecimento penal, como redução da maioridade penal, ampliação do sistema prisional e restrições à progressão de regime.

Para Bianca Lima, analista de política da XP, em participação no programa “Mapa de Risco” do InfoMoney, as diferenças refletem visões distintas sobre segurança pública e estratégias eleitorais. “O governo federal vem tentando adotar medidas que não dependam da deliberação de deputados e senadores. Lançou um programa muito nessa linha de tentar asfixiar o crime organizado, olhar para a rede de financiamento dessas organizações e fazer esse combate pelo andar de cima. Também abriu uma linha de crédito via BNDES para os governadores e tenta mostrar que está usando a inteligência da Polícia Federal, da Receita e de outros órgãos federais para controlar essas organizações”, afirmou.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

PEC da Segurança Pública parada no Congresso

Parte da estratégia do governo passava pela PEC da Segurança Pública, enviada ao Congresso. No entanto, Bianca avalia que a proximidade das eleições tornou improvável o avanço do texto no Senado ainda em 2025. “Hoje, nossa visão é que há pouco espaço e abertura política para essa PEC da Segurança avançar no Senado a tempo das eleições de outubro. Diante dessa dificuldade, o governo vem tentando adotar outras ações que não dependam da deliberação do Congresso e reforçar esse discurso de combate ao financiamento das organizações criminosas”, disse.

Na avaliação da especialista, o desafio do governo é convencer o eleitor de que medidas voltadas à inteligência e ao combate financeiro do crime organizado produzem efeitos concretos no cotidiano. “Acho que há dúvidas sobre o quanto isso dialoga com o eleitor, que às vezes gostaria de uma resposta mais rápida. Há também a discussão sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública, mas o eleitor pode não enxergar a criação de uma nova estrutura em Brasília como algo que faça diferença na vida dele”, afirmou.

Flávio Bolsonaro aposta em pauta conservadora

Do outro lado, Bianca vê a campanha de Flávio Bolsonaro concentrando esforços para transformar a segurança pública em sua principal bandeira eleitoral. O lançamento do plano “Brasil Sem Medo” dialoga diretamente com a sensação de insegurança da população e reforça um tema historicamente associado a candidatos conservadores. “Tradicionalmente, a direita e os candidatos conservadores transitam melhor pela pauta da segurança pública. Você vê uma série de candidatos trazendo essa bandeira e, no caso do Flávio, esse deve ser um dos principais eixos da campanha. A ideia é tirar o medo da população em relação à violência e, ao mesmo tempo, associar a continuidade de um eventual Lula 4 a um temor em relação à economia”, afirmou.

Ela observa que as propostas apresentadas pelo senador ainda precisam ser detalhadas, mas a direção já está clara. “A campanha do Flávio tem um foco muito grande nesse assunto. A grande aposta está na questão da segurança. O plano apresentado fala em maior encarceramento, construção de presídios de segurança máxima, redução da maioridade penal e progressão mais lenta das penas. Ainda faltam detalhes, mas esse deve ser um dos principais eixos da campanha”, disse.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Debate sobre segurança será inevitável

Na avaliação da analista, nenhum candidato conseguirá escapar da pauta da segurança pública durante a campanha. Além de Flávio Bolsonaro, outros nomes da direita, como o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também tendem a explorar o tema de forma intensa, pressionando o governo a responder às críticas. “O tema da segurança pública não poderá ser ignorado por nenhum dos candidatos. Ele estará nos debates, nos palanques e nas campanhas. O desafio da oposição será convencer que, agora, essas propostas podem produzir resultados diferentes. Já o desafio do governo será mostrar que o combate ao crime organizado pelo financiamento e pela inteligência é efetivo e consegue dialogar com a população”, afirmou.

Para Bianca, a disputa não será apenas sobre quais propostas são mais eficientes, mas sobre qual narrativa conseguirá transmitir ao eleitor a sensação de que é capaz de devolver segurança ao dia a dia da população.