Áudios obtidos pela Rede Paraíba e anexados à investigação da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) revelam o delegado Braz Morroni, preso sob suspeita de integrar um esquema de desvio de drogas na Polícia Civil da Paraíba, orientando um escrivão a registrar um boletim de ocorrência com dados falsos e em data diferente da apreensão real. A investigação aponta que o documento foi datado de 17 de outubro de 2025, mas a apreensão ocorreu em 11 de outubro.
O teor dos áudios
Nos áudios, extraídos do celular do delegado, Braz Morroni conversa com um interlocutor identificado como "Quinze", escrivão da Polícia Civil. Ele instrui que dois investigadores, Everton Aires (conhecido como "Bomba") e Eduardo Jorge ("Mão Branca"), também presos, levariam a droga apreendida até a delegacia dias depois da apreensão para registro. "Beleza, Quinze, é o seguinte, Mão Branca e o Bomba vão levar uma droga que eles apreenderam, certo? No sábado, sábado passado, né? Aí é só pra tu fazer o ofício de constatação de substância, certo? Aí da forma que vier, eu acho que são dois sacos grandes. E aí você só faz essa requisição. Bota o local, né? Que foi numa casa. Aí tu organiza com ele, viu? Eu vou botar a conta de luz que Mão Branca me mandou agora. Aí já pra tu ficar com os dados aí", disse no áudio.
Evidências de participação direta
O relatório da Draco também aponta que a perícia no celular do delegado recuperou fotografias apagadas que indicam sua presença no imóvel onde a droga estava armazenada, no dia 11 de outubro, data da apreensão. As imagens mostram pacotes de drogas guardados em um quarto, com data, horário e geolocalização registrados. Segundo a investigação, esses registros, somados ao GPS da viatura, indicam que Braz participou da retirada da droga, da distribuição entre suspeitos e retornou para casa, sem qualquer registro formal naquele dia. O registro oficial, feito em 17 de outubro, informa a apreensão de apenas 1,5 kg de substância entorpecente, enquanto os indícios apontam para um volume muito superior, estimado em 100 kg.
O esquema e os envolvidos
A investigação teve início em fevereiro de 2025, após denúncia de um traficante sobre desvio de drogas por agentes da corporação. Ao longo das apurações, foram reunidos elementos que indicam que o esquema movimentou cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos. Dos nove mandados de prisão expedidos, oito foram cumpridos na Operação Perfídus. Entre os presos estão o delegado Braz Morroni, os investigadores Everton Aires e Eduardo Jorge, além de outros suspeitos como João Wicttor Alves de Lima, Brendo Roberth Fernandes Sobral, Paulo Ricardo Barbosa de Souza, José Alexandrino de Lira Júnior e Vanessa Dantas Fernandes. Dankennedy Vieira, integrante de facção, foi o único alvo de mandado de prisão não localizado.
Papel de cada suspeito
Everton Aires é apontado como operador central do grupo, responsável por guardar drogas desviadas, negociar carregamentos e organizar a contabilidade clandestina. Eduardo Jorge participava diretamente da subtração de drogas, monitorava carregamentos e armazenava entorpecentes em sua residência. O delegado Braz Morroni, segundo a decisão judicial, não apenas tolerava as ações, mas era beneficiário direto dos lucros, recebendo repasses financeiros e usando sua posição para proteger o grupo. A decisão cita transferências de Everton para contas ligadas ao delegado e conversas indicando reserva de lucros para ele.
Defesas e situação jurídica
O g1 tentou contato com a defesa de Braz Morroni, que não respondeu. As defesas de Everton Aires e Eduardo Jorge não foram localizadas. Todos os três estão presos temporariamente, por determinação da Justiça. Em audiência de custódia, a prisão temporária foi mantida. A defesa do delegado afirmou que "é preciso ressaltar o direito constitucional à presunção de inocência" e que "irá analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado", além de afirmar que "no momento oportuno, irá provar sua inocência".



