Viih Tube e Eliezer: reality show com prêmio de R$ 20 mil é encenação sobre escala 6x1
Reality de Viih Tube com prêmio de R$ 20 mil é encenação

Na última semana, a influenciadora Viih Tube publicou o primeiro episódio de seu reality show "As Patroas", no qual seus funcionários disputavam um prêmio de R$ 20 mil. A dinâmica gerou críticas e uma investigação por parte do Ministério Público do Trabalho (MPT). A influenciadora e seu marido, Eliezer, afirmaram que, na verdade, tudo não passava de uma encenação para conscientizar os espectadores contra a escala de trabalho 6x1. Ou seja: Viih Tube divulgou um episódio do reality show escondendo do público sua real intenção.

Estratégia de 'rage bait' e engajamento pelo ódio

Especialistas explicam que mentir ou enganar para chamar atenção nas redes sociais não é uma estratégia nova, mas é cada vez menos efetiva. Priscila Milk, especialista em redes sociais e professora da ESPM, afirma que o algoritmo não diferencia o teor dos comentários, fazendo com que conteúdos intencionalmente polêmicos inflacionem as métricas e gerem receita. "Hoje a gente fala do 'rage bait' [isca de raiva], que é o engajamento pelo ódio. Esse ódio gera interação, infla os números e gera dinheiro", explica.

Priscila reforça que algumas marcas levam em conta apenas os números envolvidos nas redes sociais. "Durante esses momentos de polêmica, muitos influenciadores têm um pico de engajamento, alguns até ganham seguidores. Daqui uns três, quatro meses, quando forem fechar uma publi, eles vão apresentar um relatório inflado com esses números", diz.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Maturidade do público e quebra de confiança

Mariana Munis, professora de Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Mackenzie, destaca que o amadurecimento do público exige uma postura diferente dos criadores. "O problema desses grandes influencers é que muitas vezes eles acham que ainda estão em 2013, quando a internet não estava tão madura. Atualmente as pessoas estão cansadas de quem tenta nos passar para trás", afirma.

Diferentemente de ações comerciais escancaradas, o uso da mentira em dinâmicas do dia a dia quebra o elo de confiança. Mariana reforça que o desgaste gerado por estratégias baseadas na falta de transparência pode fechar portas definitivas com o mercado publicitário tradicional. "A partir do momento que eu quebro essa confiança, fica difícil voltar. Se você se envolver em muitas polêmicas à toa, que marca vai querer assinar contrato com você?", questiona.

Exemplo positivo: Luan Santana e Snickers

Priscila Milk cita um exemplo bem-sucedido: o cantor Luan Santana anunciou que deixaria a carreira sertaneja para cantar heavy metal, em uma ação com a marca Snickers. No dia seguinte, foi revelado que tudo era mentira, relacionada ao slogan da empresa. "Quando você entra num campo do absurdo e revela o que está acontecendo num período de tempo razoável, é uma estratégia que faz sentido. Nesse caso, ninguém foi afetado diretamente", explica.

Para que uma ação nesses moldes dê certo, é preciso se atentar a três fatores: tempo de revelação (após dois dias, a mentira pode não atingir o mesmo público), transparência (deixar claro que era uma maneira de chamar a atenção) e sensibilidade (não brincar com temas sensíveis).

Implicações legais e o Código de Defesa do Consumidor

A legislação brasileira não aborda de forma direta casos em que artistas ou influenciadores mentem para benefício próprio. Segundo Priscila, essa falta de punição severa e fiscalização no ambiente digital faz com que as pessoas normalizem infrações graves como se fossem apenas jogadas de marketing. "Há uma brecha no Brasil para isso, que considero um tipo de crime cibernético. Essa brecha faz com que as pessoas achem que mentir e enganar é estratégia de crescimento – quando não é", afirma.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Márcio Casado, advogado e doutor em Direito pela PUC-SP, explica que pessoas que ganham dinheiro com seus discursos devem responder pelos seus atos. Ele destaca que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) pode ser utilizado em alguns casos, considerando possível propaganda enganosa. "O artigo 37 do CDC diz que não precisa ter dolo ou intenção de enganar. Ou seja: a pessoa tem um discurso bonitinho, mas que te engana, induz ao erro, ela pode ser responsabilizada legalmente", explica Casado. "É muito comum que artistas ou influenciadores digam que são protegidos pela liberdade de expressão. No momento que você monetiza, o teu direito protegido deixa de ser sua opinião. É uma opinião que vira dinheiro."