O nome do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) aparece em uma lista do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, encontrada pela Polícia Federal durante a 5ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta quinta-feira (2). A lista reúne supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade vinculada à lavagem de dinheiro, além de nomes de agentes políticos do Rio de Janeiro. Adilsinho foi alvo de um mandado de prisão na operação, embora já esteja preso. Apesar da citação nos materiais apreendidos, Ramagem não foi alvo da ação desta quinta-feira, mas figura como investigado, junto com outros nomes que constam na lista. A Polícia Federal aprofunda as investigações.
Planilha aponta depósitos para 'DEP RAMAGEM'
De acordo com informações obtidas pelo blog, no arquivo nomeado como “planilha 2” aparecem quatro depósitos para o “cliente” identificado como “DEP RAMAGEM” e “DEP ALEXANDRE RAMAGEM”. As planilhas não mencionam o ano dos depósitos, mas registram mês, dia e valores: 02/09 – DEP RAMAGEM – R$ 39.708,00; 06/09 – DEP RAMAGEM – R$ 30.000,00; 21/09 – DEP ALEXANDRE RAGEM – R$ 18.100,00; 29/09 – DEP ALEXANDRE RAMAGEM – R$ 22.080,00. Os valores somam R$ 109.888,00.
Ramagem perdeu mandato e está foragido nos EUA
Alexandre Ramagem foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Bolsonaro e depois eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ele perdeu o mandato e foi demitido do cargo de delegado da Polícia Federal após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos, um mês e 15 dias em regime fechado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Ramagem fugiu para os EUA no mês da condenação e é alvo de pedido de extradição do governo brasileiro. Ele solicitou asilo político, ainda em análise pelos EUA.
Cláudio Castro também é citado
O nome do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) também aparece na lista atribuída a Adilsinho. Segundo apuração do repórter Mohamed Saigg, a lista menciona uma doação de R$ 3,2 milhões para o candidato Cláudio Castro, que concorreu à reeleição em 2022. Castro governou o Rio de 2021 a 2026, quando renunciou um dia antes do julgamento do TSE que determinaria sua cassação e inelegibilidade. Ele não foi alvo da ação desta quinta-feira. Em nota, sua defesa classificou como “mentirosa qualquer ilação” de que o ex-governador tenha recebido pagamentos de Adilsinho, afirmando que a citação ao nome “não comprova recebimento de valores, irregularidade eleitoral ou prática de qualquer ato ilícito”.
Operação Unha e Carne investiga lavagem de dinheiro do jogo do bicho
A 5ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta quinta-feira (2), investiga esquemas de lavagem de dinheiro da cúpula do jogo do bicho e possíveis conexões com integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do Rio de Janeiro. O pastor e empresário Márcio Poncio foi preso preventivamente em um flat na Barra da Tijuca, suspeito de ligação com a denominada “Máfia do Cigarro”. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, expediu mandados de prisão contra Adilsinho e o ex-deputado Rodrigo Bacellar, que já estavam presos por fases anteriores. A decisão judicial determinou o sequestro de bens e valores de até R$ 22 milhões, com base em planilhas da Operação Fumus de 2021 que indicavam pagamentos indevidos e “mesadas” para pelo menos 20 políticos do estado.
Investigação deriva da ADPF das Favelas
A 5ª fase deriva de uma determinação do STF no âmbito da ADPF das Favelas, que ordena a apuração de vínculos entre grupos criminosos e agentes públicos. Nas fases anteriores, a Operação Unha e Carne investigou o vazamento de informações sigilosas para a facção Comando Vermelho, o escândalo da Ceperj e fraudes em contratações na Secretaria Estadual de Educação. As investigações envolveram figuras como o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto e o deputado Thiago Rangel, apontando para uma possível cadeia de proteção institucional ao crime organizado. A “Máfia do Cigarro”, liderada por Adilsinho, é descrita como um esquema que controla a venda de cigarros falsificados em quase metade dos municípios do Rio de Janeiro, gerando prejuízos bilionários em sonegação fiscal. Em resposta, a defesa de Márcio Poncio afirmou não ter tido acesso aos autos, enquanto a defesa de Adilsinho negou o pagamento de vantagens indevidas a políticos.



