Valdemar destinou R$ 97 mi em emendas antes de eleições, diz PF
Valdemar destinou R$ 97 mi em emendas antes de eleições

Dos R$ 119 milhões em emendas indicadas pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, segundo a Polícia Federal, R$ 97 milhões foram enviados na semana anterior ao limite para transferência de recursos federais antes das eleições municipais de 2024. A análise do GLOBO indica que boa parte dos recursos foi destinada para fortalecer candidatos do PL ou apoiados pelo partido.

Janela eleitoral e concentração de repasses

A legislação veda, com exceções, a transferência de recursos da União a estados e municípios nos três meses que antecedem o pleito. Em 2024, o primeiro turno foi em 6 de outubro, fechando a janela em 6 de julho. No período imediatamente anterior a essa data, concentrou-se a maior parte do dinheiro indicado por Valdemar: das 21 emendas listadas na decisão do ministro Flávio Dino, do STF, seis repasses para Suzano (SP), Porto Seguro (BA), Caraguatatuba (SP), Bebedouro (SP), Ubatuba (SP) e Rio de Janeiro (RJ) somaram R$ 96,7 milhões.

Com exceção de R$ 6 milhões indicados ao Rio em 1º de julho, todas as outras emendas foram empenhadas em 26 de junho de 2024. Os recursos da Saúde, por serem transferidos fundo a fundo, caem nas contas municipais sem carimbo definido, permitindo uso imediato pelas prefeituras. A lei exige que 50% das emendas sejam para a Saúde.

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Maiores beneficiários e resultados eleitorais

Suzano, na Grande São Paulo, foi o maior destino individual: R$ 26,8 milhões em junho de 2024. A cidade era governada pelo PL, com o prefeito Rodrigo Ashiuchi (fim do segundo mandato) trabalhando para eleger o sucessor Pedro Ishi, do mesmo partido — eleito em outubro. O segundo maior repasse foi para Porto Seguro (BA), R$ 24,9 milhões; o prefeito Jânio Natal (PL) disputou a reeleição e venceu. Caraguatatuba (SP) recebeu R$ 23 milhões, terceiro maior valor; o prefeito Aguilar Junior (MDB) apoiou um candidato do PL, que perdeu. Nas demais cidades, os repasses ocorreram em pleitos bem-sucedidos para o PL.

Procurado, Valdemar negou irregularidades: “Os deputados cedem uma parte das emendas, as comissões têm emendas porque têm verba. Nós temos várias comissões permanentes por causa do tamanho da bancada e com isso a gente consegue ajudar um pouco os nossos prefeitos.”

Repasses após outubro e pulverização

Depois de outubro de 2024, os repasses ligados a Valdemar mudam de escala: R$ 9,5 milhões para Santa Fé do Sul (SP) e R$ 4,7 milhões para Morro do Chapéu (BA) em dezembro. A primeira elegeu prefeito do PL; a segunda reelegeu prefeita com apoio do PL. Ao longo de 2025, os valores se pulverizaram, com recursos de R$ 220 mil a R$ 3 milhões por município na área de turismo. O montante milionário foi para Mogi das Cruzes (SP), cidade natal de Valdemar.

Prefeitos citados ainda não se manifestaram. Segundo a investigação, as emendas eram indicadas por Valdemar, que não tem mandato, e registradas em nome de deputados “solicitantes” para dar aparência de legalidade. Dino determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens do dirigente e a suspensão da execução de todas as despesas ligadas às emendas.

Caraguatatuba admitiu indicação de Valdemar

Um ano e meio antes de a PF apontar Valdemar como padrinho das emendas, a Prefeitura de Caraguatatuba já registrava o nome dele em documento oficial. Em publicações no site da prefeitura, os dois maiores repasses do ano aparecem com autoria atribuída a “Comissão da Saúde — Waldemar Costa Neto”, com grafia incorreta, referentes às mesmas emendas identificadas pela PF. O registro contradiz a versão oficial da Câmara dos Deputados, que atribuía as emendas à liderança do PL, manobra que, segundo a PF, servia para dar “ares de legalidade” às indicações de um dirigente sem mandato. São todas emendas para a Saúde, na ação genérica “Incremento Temporário ao Custeio dos serviços de assistência hospitalar e ambulatorial para cumprimento de metas”.

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