Durante a Copa do Mundo de 2026, o termo sportswashing tem se repetido em análises e artigos de opinião. Mas o que ele significa e qual sua relação com o Mundial?
Sportswashing é a prática de usar o esporte para melhorar a imagem pública de um ator acusado de violações éticas, políticas ou de direitos humanos. Ao se associar aos valores positivos do esporte, esse ator pode desviar a atenção de seus problemas e melhorar a percepção externa. Geralmente associado a regimes autoritários, o conceito não se limita a atores estatais e pode incluir grandes corporações, por exemplo, por meio da compra de naming rights.
Origens históricas do sportswashing
Sportswashing é um termo novo para uma prática antiga. Especialistas apontam o início do século XX como o período em que o esporte passou a ocupar esse lugar. Dois exemplos clássicos são o uso da vitória da Itália na Copa do Mundo de 1934 pelo ditador fascista Benito Mussolini e a realização dos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, durante o regime nazista de Adolf Hitler.
A expressão começou a aparecer na mídia no fim dos anos 2000, a partir da compra do Manchester City pelo Abu Dhabi United Group, em 2008, e ganhou projeção em 2010, quando o Catar foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2022. Sua popularização também costuma ser atribuída ao movimento “Sport for Rights”, crítico ao governo do Azerbaijão e contrário à realização dos Jogos Europeus de 2015 no país.
Sportswashing no futebol moderno
Sportswashing deriva de whitewashing, que significa a tentativa de limpar a imagem pública escondendo práticas condenáveis. O termo dialoga com expressões como pinkwashing e greenwashing. Nos anos 2010, o conceito passou a ser usado especialmente em relação à compra ou patrocínio de clubes de futebol. Os casos do Newcastle United, comprado por um fundo da Arábia Saudita, e do PSG, adquirido por um fundo do Catar, estão entre os exemplos mais citados.
A Turkish Airlines, estatal da Turquia, patrocina clubes como Borussia Dortmund, Manchester United e River Plate, enquanto Ruanda patrocina Arsenal, PSG e Bayern de Munique com o logo “Visit Rwanda”. Além disso, Olimpíadas e Copas do Mundo têm sido usadas por governos autoritários. Em 2018, a Copa foi na Rússia, país já alvo de escrutínio por sua situação política pouco democrática. Em 2022, a escolha do Catar trouxe acusações de violações de direitos humanos, ausência de direitos para mulheres e LGBTQIA+, e restrições à liberdade de expressão.
Críticas ao conceito: viés eurocêntrico
O doutor em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro, Emanuel Leite Júnior, alerta para o uso seletivo da palavra sportswashing. “Na minha avaliação, o conceito apresenta um forte viés eurocêntrico porque costuma ser mobilizado quase exclusivamente quando o protagonista é um país não ocidental ou que desafia a ordem hegemônica internacional”, argumenta. “O conceito deveria ser aplicado indistintamente a qualquer Estado que utilize megaeventos esportivos com esse propósito. Caso contrário, transforma-se em uma categoria seletiva, usada para deslegitimar determinados países enquanto naturaliza estratégias semelhantes quando praticadas por potências ocidentais”, completa.
Leite Júnior cita a Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, a maior potência ocidental. Para ele, o termo aparece quase sempre associado ao presidente Donald Trump, e não ao país como um todo. “Essa distinção não é trivial. Ela contribui para construir a narrativa de que Trump seria uma anomalia ou um desvio da tradição política dos Estados Unidos, quando diversas práticas apontadas como justificativas para o chamado sportswashing transcendem governos específicos e fazem parte da atuação internacional do próprio país ao longo de diferentes administrações, republicanas e democratas.”
Copa 2026 nos EUA: sportswashing ou não?
Em 2026, o termo sportswashing voltou a ocupar espaço na mídia por causa da realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Embora México e Canadá também sejam sedes, a maior concentração de jogos em território americano, somada às questões políticas internas e externas, levou o foco para os EUA. Com a guerra contra o Irã, a invasão da Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro, além de ameaças a Cuba, Colômbia e Groenlândia, não faltam motivos para que Trump queira se associar aos valores positivos do esporte. Internamente, a repressão a imigrantes pelo ICE e a redução da liberdade de expressão são pontos destacados por organizações de direitos humanos.
Adriano Freixo, historiador, professor da UFF e autor de Futebol: o outro lado do jogo, afirma que não acredita que Trump esteja preocupado em usar o evento para limpar a própria imagem. Para ele, fatos que vieram à tona sobretudo no início do Mundial mostram que o presidente está “jogando para o seu público doméstico — o MAGA e assemelhados — e para a base global da ultradireita”.
Emanuel Leite Júnior concorda: “Trump nunca buscou construir uma imagem de líder conciliador ou cosmopolita. Sua identidade política sempre esteve associada à ideia de força, autoridade e nacionalismo. Por isso, acredito que a Copa lhe interessava muito mais como palco para projetar a imagem de poder dos Estados Unidos e, por extensão, de sua própria liderança, do que propriamente como instrumento de reconstrução reputacional.”
O tiro pela culatra do sportswashing
Ainda que não esteja tentando se reabilitar, Trump pode acabar atingido pelo outro lado do sportswashing — um tiro pela culatra. Ao mesmo tempo em que sediar um grande evento pode trazer atenção positiva, também coloca o país e o governo anfitrião sob maior escrutínio internacional, ampliando a visibilidade de problemas internos.
Em suas redes sociais, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz comentou que “não tem sportswashing possível nesta edição”, chamando a atenção para episódios como o da delegação iraniana, que não pôde se hospedar nos EUA mesmo jogando no país, e o de um árbitro somali, impedido de entrar.
Adriano Freixo acrescenta: “Sem sombra de dúvida, tais medidas contribuem para deteriorar ainda mais a imagem internacional dos EUA, que já vem se desgastando pelo conjunto da obra da administração Trump, como mostram diversas pesquisas recentes. E impactam também a já desgastada imagem da Fifa, que tem se mostrado totalmente subserviente aos interesses dos EUA e de Trump.”
É possível medir a efetividade do sportswashing?
Os especialistas ouvidos concordam que é possível medir a efetividade do sportswashing, ainda que isso seja complexo, principalmente porque os objetivos são de longo prazo. “Não pode ser medido apenas pelo sucesso da realização de um megaevento ou pelo número de turistas, investimentos ou espectadores alcançados”, afirma Leite Júnior. “A questão central é saber se a estratégia conseguiu, de fato, alterar a percepção internacional sobre o ator que a promoveu. Trata-se de um fenômeno ligado às percepções, à construção de legitimidade e à disputa de narrativas.”
Freixo aponta indicadores imediatos, como aumento do fluxo de turistas e investimentos estrangeiros, mudanças na cobertura da mídia internacional e crescimento de menções positivas nas redes sociais.
2034 na Arábia Saudita: o próximo grande evento
Em 2034, a Copa do Mundo será realizada na Arábia Saudita. O país já vem investindo pesadamente em esportes como golfe, boxe, Fórmula 1 e futebol, onde joga Cristiano Ronaldo. Esse movimento faz parte do plano “Visão 2030”, que pretende transformar o país em um centro global de negócios, investimento e inovação.
No entanto, a Arábia Saudita também deve enfrentar maior exposição de suas violações de direitos. A Human Rights Watch já chama atenção para os problemas locais: o governo aprisiona dezenas de ativistas e dissidentes por críticas pacíficas, nega às mulheres direitos civis e humanos fundamentais e priva trabalhadores migrantes de seus salários após tratamento brutal. Além disso, uma comunidade já foi expulsa de sua área para a construção de um estádio, erguido sob denúncias de trabalho análogo à escravidão.
Freixo observa que a escolha do país se insere em uma tendência das organizações esportivas internacionais de preferirem realizar torneios em países de regimes fechados. “Nos países democráticos, têm havido fortes contestações da população local em relação aos custos e legados desses eventos, que já se traduziram até em manifestações massivas, capazes de ameaçar a realização dessas competições. Nesses países de regime fechado, com forte controle e repressão estatal, esse tipo de situação é mais difícil de ocorrer e, ao que tudo indica, Fifa e COI preferem que seja assim”, conclui.



