O alívio inicial nos mercados de bolsa e câmbio nos primeiros dias de julho foi ofuscado pelo comportamento das curvas de juros, que permanecem próximas das máximas históricas, mesmo com a queda do petróleo. Esse cenário acendeu o alerta entre agentes de mercado do buy-side, que voltam a focar no risco fiscal e na corrida eleitoral como principais fatores de preocupação.
Pacote de estímulos é criticado por gestoras
A TAG Investimentos classificou o pacote de estímulos do governo em ano eleitoral como “fiscalmente insustentável, macroeconomicamente expansionista e desenhado para vencer uma eleição, não para resolver um problema estrutural”. Segundo a casa, o ciclo atual de gastos é o segundo maior da história recente, perdendo apenas para o primeiro mandato de Dilma Rousseff.
A Adam Capital seguiu a mesma linha, afirmando que “o Estado brasileiro segue sufocando a produtividade privada” e que “continuamos enxergando os ativos brasileiros como muito caros”. Já a Opportunity conectou o desconforto ao desempenho da renda fixa, destacando que junho trouxe “uma performance particularmente negativa na renda fixa, diante da percepção de um risco crescente de expansão fiscal via mecanismos que escapam às regras para o orçamento federal”.
Renda fixa: apenas pós-fixados superam CDI no semestre
No primeiro semestre, somente aplicações pós-fixadas bateram o CDI dentro da renda fixa. O índice da Anbima que acompanha o desempenho das debêntures incentivadas, por exemplo, rendeu apenas 20% da referência.
Cautela com ativos locais no médio prazo
A Ibiúna recomendou “cautela com os ativos locais além do horizonte tático”, citando fragilidade fiscal, corrida presidencial acirrada e fragmentação política, com incertezas sobre a composição da direita na disputa. Apesar disso, boa parte das gestoras mantém posições táticas construtivas no Brasil, sustentadas pelo juro real elevado. A própria Opportunity seguiu comprada em NTN-Bs e aplicada na curva de DI ao longo de junho. No entanto, a perspectiva muda ao considerar o médio prazo, com a trajetória da Selic ainda mais incerta após o Banco Central endurecer a avaliação do cenário de desinflação.
Expectativas para os juros: divergências entre gestoras
A precificação das taxas curtas chegou a embutir apostas de que o Banco Central “poderia precisar reverter parte dos cortes de juros realizados ao longo do ano”, destacou a Legacy Capital, movimento que se dissipou em junho, mas voltou a ganhar força nos primeiros dias de julho. A Occam está taticamente tomada em juros, beneficiando-se da alta das taxas. Por outro lado, a Kinea tem cenário mais benigno, sustentando que “o próximo movimento deve ser de queda [de juros], e não de alta”, mantendo posições aplicadas na parte curta da curva. Ainda assim, reconhece o desconforto de fundo, notando que “o que antes parecia uma taxa emergencial começa a se parecer com uma nova taxa de equilíbrio”.
Visão estrangeira: “escuridão antes do amanhecer”
Enquanto gestoras locais estão mais defensivas, algumas casas globais veem oportunidade no pessimismo. A BlackRock colocou América Latina e Brasil entre suas preferências para o segundo semestre, mas na renda fixa, não na Bolsa. O estrategista-chefe para a região, Axel Christensen, afirmou que “Brasil e Colômbia oferecem alguns dos maiores retornos reais e possibilidade de uma breve normalização monetária, apesar de os desdobramentos fiscais continuarem críticos”. A casa sugere títulos corrigidos pela inflação em moeda local.
O Bradesco BBI também está mais construtivo. Em relatório, a casa menciona conversas com investidores nos EUA e Europa e descreve o sentimento com o Brasil como “escuridão antes do amanhecer”, com o mercado barato, mas sem catalisadores à vista. A leitura dos estrangeiros, segundo o BBI, é de que a região está refém do rali de tecnologia e vulnerável a um dólar mais forte, com posições enxutas e defensivas. O banco, no entanto, se diz positivo e aponta o Brasil como sua principal aposta na América Latina, com gatilhos mal precificados, como corte de juros, definição eleitoral e eventual rotação global para fora da tecnologia.



