Flávio Bolsonaro defende fim de tarifas dos EUA em audiência crucial
Flávio Bolsonaro defende fim de tarifas dos EUA em audiência

Em uma audiência restrita do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez uma apresentação de cinco minutos que aliados consideram a mais importante de sua viagem a Washington. Acompanhado pelo irmão, ex-deputado Eduardo Bolsonaro, Flávio foi o primeiro expositor do oitavo painel da audiência, ocorrida nesta terça-feira sem transmissão ao vivo e diante de empresários, advogados, representantes do setor produtivo e integrantes do governo americano.

Preparação e orientação estratégica

Nos minutos que antecederam sua fala, auxiliares faziam os últimos ajustes no roteiro. Segundo interlocutores da campanha, a principal preocupação era evitar que a audiência reproduzisse o desgaste provocado pelo documento de 86 páginas entregue ao USTR na semana passada. A orientação reforçada era clara: deixar explícito que Flávio defenderia o cancelamento das tarifas — e não apenas seu adiamento —, reforçar a defesa do Pix e insistir que uma negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos seria mais eficiente do que a adoção de barreiras comerciais.

A avaliação interna era que aqueles cinco minutos poderiam redefinir a narrativa construída desde a divulgação do parecer. Embora o texto defendesse a suspensão das tarifas enquanto os dois países negociassem os temas da investigação comercial, adversários passaram a avaliar a proposta como uma tentativa de empurrar a medida para depois das eleições de 2026. Aliados repetiam que o documento havia sido “mal interpretado” e que Washington representava a melhor oportunidade para corrigir essa percepção.

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Contexto político e ofensiva de Lula

Também pesava sobre a viagem a ofensiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou os últimos dias associando a interlocução da família Bolsonaro com integrantes do governo Donald Trump ao risco de o Brasil sofrer novas sanções comerciais. A avaliação dentro da campanha era que Flávio precisava deixar os Estados Unidos com uma imagem oposta: a de quem havia viajado para defender empresas brasileiras e tentar impedir o tarifaço.

Quando recebeu a palavra, Flávio abriu a programação como o primeiro expositor do oitavo painel. Ao lado do senador estavam o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, representando a Confederação Nacional da Indústria (CNI); Letícia Sperb Masselli, da Abicalçados; Matt Priest, presidente da Footwear Distributors and Retailers of America (FDRA); e Peter Gerberich, da Gerberich LLC. Cada participante teve cinco minutos para resumir a manifestação escrita previamente encaminhada ao USTR antes da rodada de perguntas.

Conteúdo da exposição: tarifas, Pix e crítica ao STF

Embora tenha iniciado a exposição pedindo aos integrantes do USTR que cancelassem as tarifas, preservassem o Pix e permitissem uma negociação entre os dois países, Flávio procurou convencer os representantes americanos de que a investigação comercial não deveria ser analisada apenas sob a ótica econômica. Ao longo da fala, ele apresentou sua leitura sobre o cenário político e institucional brasileiro para explicar, na sua avaliação, as razões que levaram à abertura do procedimento pelos Estados Unidos.

Segundo relatos de pessoas que acompanharam a audiência, o senador afirmou que decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) têm produzido impactos sobre a política e a economia brasileiras e voltou a dizer que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, é vítima de uma “caça às bruxas” conduzida pelo Judiciário. Também sustentou que medidas relacionadas à moderação de conteúdo nas plataformas digitais decorreram de decisões judiciais e de atos do Poder Executivo, e não de leis aprovadas pelo Congresso.

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Corrupção e Banco Master na pauta

A parte dedicada à corrupção também foi ampliada em relação ao que vinha sendo antecipado pela campanha. De acordo com interlocutores, Flávio citou o mensalão, a Operação Lava-Jato, a condenação e posterior anulação das condenações do presidente Lula, fez referência às fraudes no INSS e mencionou o Banco Master e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Sem citar Daniel Vorcaro, argumentou que casos de corrupção possuem responsáveis identificáveis e não deveriam justificar uma medida comercial capaz de atingir toda a economia brasileira.

O Banco Master, inclusive, chamou a atenção de aliados por não aparecer na nota distribuída pela assessoria após a audiência. Segundo relatos, o tema foi utilizado para reforçar o argumento de que a investigação deveria mirar autoridades e práticas específicas, e não impor uma tarifa que, na avaliação do senador, acabaria penalizando empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.

Impacto político e econômico das tarifas

Ao longo da exposição, Flávio insistiu que uma eventual tarifa produziria efeito político contrário ao pretendido pelos Estados Unidos. Na avaliação apresentada pelo senador, a medida fortaleceria o governo Lula justamente às vésperas da eleição presidencial e puniria setores da economia brasileira que não teriam relação com os temas investigados pelo USTR. Segundo participantes da audiência, Flávio também argumentou que uma nova rodada de tarifas poderia empurrar o Brasil para uma aproximação ainda maior com a China, produzindo um efeito contrário aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Ao defender o Pix, o senador afirmou que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não representa concorrência desleal às empresas americanas, mas uma política pública que ampliou a inclusão financeira e continua beneficiando companhias dos Estados Unidos que atuam no mercado de meios de pagamento.

Perguntas e respostas com o USTR

Encerrada a exposição inicial, o senador respondeu a perguntas formuladas pelos integrantes do USTR. Questionado sobre quais alternativas os Estados Unidos teriam para pressionar o Brasil sem recorrer às tarifas, afirmou que Washington dispõe de “instrumentos direcionados” contra indivíduos específicos e voltou a defender que uma nova rodada de sobretaxas produziria o efeito inverso ao desejado, fortalecendo politicamente o governo Lula. Também disse acreditar que existe grande possibilidade de mudança de governo no Brasil a partir do próximo ano, com um presidente “que não seja antiamericano”.

Frutos eleitorais e narrativa pós-audiência

Integrantes próximos ao senador saíram da audiência convencidos de que a apresentação conseguiu reorganizar a narrativa construída desde a entrega do parecer ao USTR e abrir espaço para que, caso o governo Donald Trump recue ou suavize a medida nas próximas semanas, Flávio sustente que sua atuação em Washington foi decisiva para evitar prejuízos às empresas brasileiras.

A aposta dos aliados é que uma viagem que começou cercada por críticas e acusações de “entreguismo” possa terminar incorporada ao discurso da pré-campanha como uma demonstração de influência junto ao governo americano. Se o tarifaço for retirado ou reduzido, a intenção é apresentar a participação na audiência como um dos principais argumentos para sustentar que Flávio ajudou a evitar a adoção das sanções contra o Brasil.