Washington está focado principalmente nas terras-raras e minerais críticos do Brasil, enquanto o comércio geral é considerado irrelevante nas negociações tarifárias sob a Seção 301, segundo um negociador experiente ouvido pela coluna de Míriam Leitão. O especialista, que acompanha as tratativas entre Brasil e Estados Unidos, afirma que o único interesse capaz de destravar um acordo sobre tarifas são os recursos minerais estratégicos brasileiros.
Minerais críticos como moeda de troca
As terras-raras são um grupo de mais de uma dúzia de metais essenciais para setores de alta tecnologia, como energia verde, eletrônicos e aeroespacial. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, o que desperta o interesse dos EUA. "Eles querem acesso garantido a esses recursos, e o resto da pauta comercial é secundário", afirmou o negociador, que preferiu não ser identificado.
Segundo ele, apesar das tensões recentes, é possível um acordo benéfico para ambos os lados, dado que os Estados Unidos possuem recursos financeiros e tecnologia de processamento que o Brasil ainda não domina. "Os EUA podem investir em capacidade de refino e beneficiamento aqui, em troca de fornecimento estável", explicou.
Críticas ao 'entreguismo' e defesa do pragmatismo
O negociador criticou duramente a postura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que classificou como "entreguista" em relação aos interesses nacionais. "Não se pode simplesmente ceder os recursos sem contrapartidas claras. Mas também não se pode ignorar a realidade geopolítica", disse. Ele defendeu uma abordagem pragmática para superar a polarização política que, segundo ele, tem travado avanços nas negociações.
"O Brasil precisa de um plano estratégico para seus minerais críticos, com regras claras para investimento estrangeiro e agregação de valor local. Sem isso, corremos o risco de repetir o ciclo histórico de exportação de commodities sem benefício duradouro", alertou.
Impacto nas relações bilaterais
As negociações ocorrem em meio a ameaças de tarifas recíprocas por parte dos EUA, que investigam práticas comerciais brasileiras sob a Seção 301. O foco em minerais críticos, no entanto, pode abrir uma janela de oportunidade para um acordo setorial que evite sanções mais amplas. "É uma chance de transformar uma vulnerabilidade em vantagem competitiva", concluiu o negociador.



