Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos; velório reúne artistas e familiares
Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos; velório reúne artistas

O dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, morreu aos 95 anos em São Paulo devido a complicações de insuficiência renal crônica. O velório foi realizado nesta terça-feira (7) no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de São Paulo, e reuniu familiares, amigos e artistas que prestaram homenagens ao autor de novelas como "Pantanal", "Renascer", "O Rei do Gado", "Terra Nostra" e "Velho Chico".

Convicção e defesa intransigente de suas obras

Durante o velório, os cantores Almir Sater e Sérgio Reis relembraram histórias da convivência com o autor, destacando sua personalidade forte e a convicção com que defendia cada detalhe de suas obras. Segundo os artistas, Benedito acompanhava de perto até mesmo a escolha das músicas que apareciam em suas novelas e não gostava quando decisões criativas eram alteradas sem sua aprovação. "Ele sabia muito o que queria. Os sucessos da novela, na verdade, ele que escolheu tudo", afirmou Sérgio Reis.

O cantor contou um episódio ocorrido durante a gravação de "Pantanal", em 1990, quando o diretor Jayme Monjardim o instruiu a trocar a música "Cavalo Preto" por "Chalana". Pouco depois da exibição da cena, Benedito ligou para Sérgio questionando a mudança. "Quem deu ordem para você cantar Chalana?", perguntou o autor. Ao saber que fora o diretor, Benedito reagiu com firmeza, exigindo que o texto original fosse seguido. "Ele não era fraco, não", disse Sérgio Reis, arrancando risos dos presentes.

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Inspiração para 'Pantanal' e legado na TV

Sérgio Reis também relembrou o surgimento da ideia de "Pantanal", novela que revolucionou a dramaturgia brasileira ao retratar o bioma em locações externas. Segundo ele, Benedito passou um período em sua fazenda, no Mato Grosso, após concluir outra novela. "Quando ele chegou lá e desceu do avião, olhou aquilo, os passarinhos cantando em volta da gente, ele falou: 'Sérgio, eu vou fazer uma novela que vai tomar conta do mundo'", contou.

Almir Sater destacou a influência de Benedito em sua carreira: "Ele acreditou na minha viola, trouxe minha viola para o grande público. Fez muita diferença na minha vida e na minha família. É um cara que vai sempre morar no meu coração". Já Sérgio Reis afirmou que as novelas do dramaturgo alavancaram a carreira dele e de Almir. "Graças a ele", completou.

Homenagens de familiares e artistas

A filha Edilene Barbosa contou que o escritor permaneceu lúcido até os últimos dias, apesar do agravamento de um problema renal e de sucessivas internações por infecções urinárias. "Não tem o que fazer, um transplante ele não suportaria", afirmou. Ela lembrou que "Pantanal" e "Meu Pedacinho de Chão" estão entre suas obras preferidas e recordou a participação da família na primeira versão e no remake.

A neta Paula Barbosa, atriz que integrou o elenco do remake de "Pantanal", chorou ao falar do avô. Ela relembrou o lado afetuoso e bem-humorado de Benedito, dizendo que ele a ensinou a dirigir e, no último aniversário, compôs uma música repleta de palavrões para divertir o bisneto de 8 anos.

A atriz Cristiana Oliveira, intérprete de Juma Marruá na primeira versão de "Pantanal", afirmou que Benedito continuou a chamá-la pelo nome da personagem após o fim da novela. Ela também contou que o autor insistiu para que ela interpretasse Juma, papel que marcou sua carreira, e disse que se considera uma "embaixadora do Pantanal" por causa da novela.

Trajetória de um gigante da televisão brasileira

Benedito Ruy Barbosa nasceu em Gália, interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância em Vera Cruz. Com a morte precoce do pai, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "O Estado de S. Paulo". O gosto pela escrita levou-o a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte.

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Sua estreia na televisão foi em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Em 1971, escreveu "Meu Pedacinho de Chão", novela produzida em parceria com a Globo. Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas. Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999). Em 2016, escreveu "Velho Chico", sua última novela. "Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito em depoimento ao Memória Globo.