A sinalização de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio trouxe alívio aos mercados globais e provocou um recuo recente nos preços do petróleo. A resolução diplomática diminuiu as tensões na região e abriu caminho para a normalização do fluxo comercial de energia no Estreito de Ormuz. No entanto, especialistas avaliam que o impacto dessa trégua na inflação e na trajetória dos juros globais e brasileiros esbarra em desafios macroeconômicos persistentes.
Reposição de estoques deve pressionar preços
No cenário internacional, o otimismo com a abertura do Estreito de Ormuz para o tráfego de navios tem impacto direto nas projeções de custos. Segundo Shinichiro Fukui, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, a retomada do fluxo normal de tanques petrolíferos diminui o impacto nos preços da commodity e reduz a pressão inflacionária global. Contudo, Fukui alerta que a inflação nos Estados Unidos e no mundo ainda sofrerá pressões nos próximos meses, reflexo do aumento do petróleo nos últimos dois meses durante a guerra.
Ele explica que países como China, Japão, Coreia e nações europeias utilizaram suas reservas estratégicas de petróleo durante o conflito e, obrigatoriamente, precisarão repô-las. Além dessa recomposição estrutural, a guerra evidenciou a vulnerabilidade das cadeias de suprimento globais. Segundo Fukui, economias menores e países importadores devem mudar sua dinâmica de segurança energética e, assim como acumulam dólares e ouro, devem passar a formar reservas próprias de petróleo. Isso deve gerar uma “demanda extra futura” que manterá os preços pressionados. “Esse impacto na inflação não tem como evitar. Você vai ter uma onda de inflação forte agora nos próximos meses, mas depois ele tende a retornar ao normal”, afirma Fukui. Diante desse novo xadrez de suprimento e demanda, o gestor avalia que é muito difícil que o barril retorne ao patamar de US$ 60 observado antes da guerra.
Juros dos EUA em pausa
A redução das tensões também alivia a pressão sobre o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Segundo Fukui, o mercado chegou a precificar até dois aumentos na taxa de juros norte-americana devido à guerra, mas o arrefecimento do conflito abre espaço para a manutenção no patamar atual. Esse alívio se soma à mudança de presidência do Fed, que na próxima reunião, marcada para esta terça e quarta-feiras (16 e 17), será liderada pela primeira vez pelo novo presidente Kevin Warsh, um crítico sobre as decisões de juros baseadas na inflação do passado.
Fukui destaca que a economia dos EUA segue impulsionada pelo superciclo de investimentos em Inteligência Artificial, que tem garantido forte consumo discricionário por parte de uma parcela da população de alto poder aquisitivo e absorvido cortes de vagas das gigantes de tecnologia, mesmo com sinais de alto endividamento do consumidor médio. Todo este cenário deverá ser avaliado pelo comitê para decidir os juros americanos.
O impacto no Brasil
Embora o recuo do petróleo no mercado internacional seja favorável em escala global, seus efeitos de alívio no Brasil são limitados pelas dinâmicas internas de mercado. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, explica que o Brasil não tem um repasse automático das variações globais para as bombas devido à política de preços individual da Petrobras. Para Saravalle, as expectativas de inflação para o ano de 2026 – atualmente na casa de 5,20% a 5,30% – já contemplavam um cenário com o barril do petróleo variando entre US$ 85 e US$ 90.
“Caso a gente tenha ao longo dos próximos dias um petróleo caminhando para baixo de 80 dólares, a gente poderia revisar nossas expectativas de inflação para baixo de 5%”, projeta o estrategista. Ainda assim, a inflação ficaria acima do teto da meta estipulada pelo Banco Central. Ele afirma que, para atingir um quadro mais benigno de forma estrutural, as cotações do petróleo teriam que recuar para níveis próximos a US$ 75, um cenário possível, “mas ainda pouco provável” no curto prazo.



