Estados Unidos e Irã levaram mais de dois meses de negociações instáveis e cheias de tensão para fechar um acordo que interrompe os combates e reabre o Estreito de Ormuz. Agora, vem a etapa mais complicada.
Acordo provisório e prazos apertados
O acordo provisório anunciado pelos dois lados na noite de domingo — data do aniversário de 80 anos do presidente Donald Trump — abre um prazo curto de 60 dias para negociar os pontos ligados ao programa nuclear iraniano, um tema que há anos emperra as tentativas de entendimento entre Washington e Teerã. O memorando de entendimento ainda não foi divulgado e deve ser assinado formalmente em 19 de junho.
Esse intervalo levanta dúvidas sobre o quanto realmente ficou acertado e até sobre a própria assinatura do acordo. Já começam a aparecer versões diferentes entre americanos e iranianos sobre o que foi combinado, enquanto a tensão entre Israel e Líbano continua sendo um risco adicional para o processo.
Reações e críticas
Trump afirma que esse acordo inicial é o primeiro passo de um caminho rumo à paz na região. Já os críticos dizem que ele pode acabar servindo apenas como uma trégua temporária, porque ainda não está claro se os dois lados estão dispostos a ceder nos pontos mais sensíveis: o alívio das sanções ao Irã, o futuro do programa nuclear e o destino do programa de mísseis balísticos do país.
“Não é impossível que eles consigam um acordo temporário para reabrir o estreito”, disse Michael O’Hanlon, diretor de pesquisa em política externa da Brookings Institution. “Mas, fora isso, um acordo mais amplo não parece plausível agora.”
Desconfiança mútua
A desconfiança entre EUA e Irã só aumenta a incerteza, em meio à suspeita americana de que Teerã queira retomar seu programa nuclear. Assessores de linha dura de Trump avaliam que o Irã vai tentar aproveitar qualquer brecha para enfraquecer o acordo. Do lado iraniano, autoridades afirmam que os EUA bombardearam o país duas vezes durante as negociações e citam ataques que mataram parte importante da cúpula do regime, incluindo o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e familiares de seu sucessor.
“Estamos diante de inimigos que não vão perder nenhuma chance de atacar a República Islâmica”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi. “Mesmo que as negociações de 60 dias levem a um acordo final, o país seguirá preparado para qualquer conspiração de seus inimigos.”
Papel do Congresso dos EUA
Outro ponto de atenção é o Congresso dos EUA, onde parlamentares afirmam que qualquer alívio mais amplo das sanções precisará passar pelo Senado. Isso acontece por causa de uma lei de 2015, o Iran Nuclear Agreement Review Act, criada para limitar Barack Obama enquanto ele negociava um acordo para conter o programa nuclear iraniano. Trump abandonou esse acordo em 2018, o que aprofundou ainda mais a desconfiança de Teerã.
“Vou acompanhar de perto as próximas negociações sobre o programa nuclear iraniano e outros temas”, escreveu no X o senador republicano Lindsey Graham, aliado de Trump e crítico antigo do Irã. “Estou um pouco preocupado porque a visão do Irã sobre o acordo parece diferente da versão apresentada pela equipe americana.”
Questões em aberto
Também continuam em aberto questões que a ala mais dura contra o Irã nos EUA cobra há anos, como o futuro do programa de mísseis balísticos e o apoio de Teerã a grupos como Hezbollah e Hamas. Até agora, não há sinal de que esses temas entrarão na próxima rodada de negociações.
“Nem um centavo deve ser liberado para esse regime assassino enquanto ele continuar construindo mísseis, apoiando seus grupos terroristas aliados e negando recursos às vítimas do terrorismo iraniano”, escreveu nas redes sociais o pastor John Hagee, que discursou na segunda posse de Trump.
Israel como variável imprevisível
Uma variável ainda mais imprevisível pode ser o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, há muito cético em relação à possibilidade de os EUA fecharem um acordo com o Irã que atenda aos interesses israelenses. Trump demonstrou irritação com Netanyahu nos últimos dias e disse no domingo que exigiu que Israel interrompesse os ataques ao Líbano, que vinham atrapalhando as negociações.
“O Irã tem sido bastante pragmático na forma como está lidando com isso. Eles sabem que Israel vai tentar sabotar o processo”, disse Brett Erickson, especialista em sanções e principal executivo da Obsidian Risk Advisors. “Trump vai ter de conter Netanyahu ou ampliar as concessões nos próximos dias para incentivar o Irã a se segurar.”
Detalhes sobre o estreito ainda não finalizados
Nate Swanson, pesquisador sênior do Atlantic Council e ex-integrante do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, também levantou dúvidas. Segundo ele, os detalhes sobre a reabertura do estreito — peça central do acordo previsto para ser assinado em 19 de junho — ainda não foram finalizados.
“Sim, vamos ver um aumento no tráfego, mas a situação ainda é frágil”, disse Swanson.
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