Por que torcida norueguesa faz 'remada viking' na Copa?
Remada viking: a coreografia da torcida norueguesa na Copa

A torcida norueguesa tem chamado a atenção na Copa do Mundo com a coreografia conhecida como 'remada viking', gesto que remete ao ideal heroico dos antigos escandinavos. Mas a simbologia por trás do movimento, segundo especialistas, é resultado de uma 'filtragem histórica' e serviu para criar uma identidade nacional norueguesa.

O que é a 'remada viking'?

Milhares de torcedores vestidos de vermelho reproduzem nas arquibancadas um movimento que simula a remada dos navios vikings. A coreografia se popularizou durante a melhor campanha da Noruega em Copas do Mundo e será vista novamente neste domingo (5), quando a seleção enfrenta o Brasil pelas oitavas de final.

O gesto, no entanto, não tem qualquer elemento ritualístico, explica Johnni Langer, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e coordenador do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (Neve). 'A remada é puramente prática. Os vikings remavam para chegar a algum lugar', afirma.

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A construção do mito viking

Até o século XIX, a Noruega não era completamente independente, ao contrário de Dinamarca e Suécia. 'Esse heroísmo viking teve uma importância maior para o país no sentido de tentar criar uma identidade moderna enquanto nação', diz Langer.

Os três países adotaram a exaltação da Era Viking, impulsionada por autores e pintores românticos do século XIX. 'Praticamente todas as nações, naquela época, queriam ser vistas pelas outras como militarmente poderosas, por uma questão de política internacional', acrescenta o professor.

Foi desse movimento que surgiu a imagem do enorme guerreiro viking, armado e com um elmo de chifres, em busca de saques. Na realidade, não há registro de que os capacetes vikings tivessem adornos desse tipo. 'À época, o chifre era um sinal de vigor, de poder. A representação de um guerreiro antigo portando chifres é uma imagem máscula. Os românticos do século XIX tinham uma agenda: criar essa visão gloriosa do passado', explica Langer.

Vikings e a cultura náutica

A celebração norueguesa tem relação com o mar. Durante o século XX, os noruegueses estiveram entre os principais exploradores do Polo Norte e têm como ícone nacional o explorador Thor Heyerdahl, que navegou da América do Sul até o Pacífico em uma jangada.

Os vikings tiveram contribuição importante para a cultura náutica norueguesa. Seus navios de guerra, leves e capazes de ser impulsionados por remos, permitiam entrada e saída rápidas de diversos lugares na ausência de vento. 'Na verdade, era a grande arma secreta deles', afirma Langer.

Um espírito de 'curiosidade e aventura', além de intenções colonialistas, levou os noruegueses a expedições para Escócia, Islândia, Groenlândia e até a América do Norte, palco da Copa do Mundo deste ano.

O que significa 'viking'

O termo 'viking' descreve uma ação, não uma etnia. Era usado para caracterizar a saída ao mar para pirataria, comércio ou colonização, atividade exercida por uma parcela pequena das sociedades escandinavas da época. Os grupos autoidentificados como dinamarqueses, suecos e noruegueses compartilhavam o nórdico antigo e a mitologia nórdica.

Parte das expedições coloniais, como as direcionadas à Islândia e à América do Norte, não devem ser caracterizadas exatamente como 'viking', afirma Langer. 'Não são, tecnicamente, 'vikings', no sentido de não fazerem pilhagem. Não é uma guerra de conquista. Eles estão procurando terras para criar fazendas. Um termo melhor seria 'colonos armados'.'

Distanciamento do mito na Suécia

Embora os países escandinavos tenham exaltado a imagem viking por anos, o tema hoje é tratado com ressalvas na Suécia, onde grupos de extrema direita buscam se reapropriar dos símbolos. 'Eles estão usando esse passado viking principalmente para a sua agenda contra imigrantes. É a ideia de um passado puro, de uma raça pura e superior que não pode ser contaminada', explica Langer.

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Um exemplo é a obra 'Thor Combate os Gigantes', pintada por Mårten Eskil Winge em 1872. A peça ajudou a consolidar o imaginário viking e influenciou a versão do deus nórdico Thor nos quadrinhos da Marvel. O quadro, principal item do Museu Nacional de Belas-Artes da Suécia, foi enviado para a reserva técnica após se tornar ponto de reverência para grupos extremistas. 'A Suécia se fechou um pouco para essa questão [da exaltação da história viking] por causa do uso político', conclui o professor.