Um vídeo que mostra um homem tomando banho em uma fonte de água enquanto chamas queimam ao redor dele é verdadeiro. A cena, gravada no Daguestão, república russa banhada pelo Mar Cáspio, viralizou nas redes sociais. O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Humberto Marotta Ribeiro, explicou que o fenômeno é possível devido ao escape de gás inflamável, principalmente metano, junto com a água.
Como é o vídeo?
Publicado no X (antigo Twitter) em 6 de janeiro de 2025, o vídeo de 21 segundos ultrapassou 90 mil visualizações. Nele, um homem lava a cabeça e o tronco na água que sai de uma tubulação, enquanto chamas dançam próximas ao seu corpo. O banhista aparenta tranquilidade e sorri. A legenda em português afirma: "Lagos geram 20% do metano natural global. Suas bolhas são altamente inflamáveis. Na Rússia, uma dessas fontes em corpos d'água permite que as pessoas tomem banho com chamas".
O post é uma republicação de uma cena que viralizou na mesma rede social em 11 de setembro de 2024, acumulando mais de 774 mil visualizações. A descrição em inglês dizia: "Este deve ser um dos chuveiros mais estranhos do mundo! Ele aparentemente está localizado na Rússia e jorra água e fogo ao mesmo tempo!".
Localização e origem da fonte
A gravação ocorreu em um ponto turístico no Daguestão, perto da vila de Belidzhi, na fonte sulfurosa chamada 'Goryachka'. O local já foi mostrado por veículos jornalísticos locais. Uma busca reversa de imagens, utilizando a plataforma InVID e motores como Google Lens e Yandex, levou a uma publicação de 13 de setembro de 2023 no Instagram do veículo russo RuNews24, que descrevia: "No Daguestão, perto da vila de Belidzhi, na fonte sulfurosa chamada 'Goryachka', é possível observar um espetáculo incomum e impressionante. Ali, turistas e moradores locais literalmente 'tomam banho' em meio às chamas. Apesar da aparência assustadora, é impossível se queimar com essa água, já que sua temperatura não ultrapassa 40 °C."
Em 15 de outubro de 2020, um turista publicou no site russo Dzen um relato com fotos do local: "Continuamos nossa viagem de carro pelo Daguestão... descobrimos que, a 40 km de Derbent, perto de Belidji, existe um pequeno lago quente e turvo, com água considerada medicinal e rejuvenescedora. A água é marrom, salgada, sem cheiro e tem temperatura em torno de 50°C a 60°C. Assustador... Mas a principal atração é que a água pega fogo (!!!), e é possível tocar a chama sem se queimar." As coordenadas fornecidas coincidem com Belidzhi, no Daguestão, conforme verificado no Google Earth e Yandex Maps.
Um vídeo publicado em 2022 no YouTube por um blogueiro mostra o poço em Belidzhi, sua chegada de carro e um mergulho com familiares. Ele afirmou: "O poço termal de Beliji (Belidzhi) também conhecido como 'Goryachka', está localizado a 1 km da costa do Mar Cáspio... A temperatura da água é de aproximadamente 40°C (104°F), e sua composição é cloreto de cálcio. Os minerais contêm predominantemente iodo (até 30 mg/L), bromo (200-250 mg/L) e bário (300 mg/L)."
Explicação científica do fenômeno
Humberto Marotta Ribeiro, da UFF, explicou que "o fenômeno de água com chamas é, sim, possível". "É conhecido em lagos que congelam em parte do ano e cujo fundo pode apresentar sedimentos orgânicos e/ou sistemas geológicos associados a gás natural ou petróleo, embora não seja restrito a regiões frias. A explicação mais provável é o escape de gás inflamável, principalmente metano, junto com a água." O especialista citou como exemplo um vídeo da BBC no YouTube intitulado "Lagos de metano congelado são potenciais desastres", que mostra chamas em um lago sob a neve.
Questionado se a chama queima, Ribeiro afirmou: "A chama queima, sim. O que ocorre é que a combustão se concentra no gás que sai da água, e não na água. A água absorve calor, molha a pele e reduz o tempo e a intensidade do contato direto com a chama. Ainda assim, não é uma situação segura. Caso a pessoa permanecesse mais tempo, o fluxo de gás fosse maior ou a chama tocasse diretamente a pele, poderia haver queimadura."
O professor detalhou que "esse gás metano pode ter diferentes origens naturais, desde a decomposição de matéria orgânica recente, presente nos sedimentos de fundo, até processos geológicos de milhares a milhões de anos, em camadas ainda mais profundas associadas ao gás natural". "Em temperatura ambiente, a combustão do metano em contato com o oxigênio atmosférico precisa de ignição natural ou humana. Para ter uma ideia do seu poder combustível, o metano é o principal constituinte do gás natural que usamos como fonte de energia."
Sobre a temperatura da água e da chama, Ribeiro explicou: "A água pode ser gelada ou até morna, dependendo da origem da fonte. O fato de haver chama não significa necessariamente que a água seja quente, porque quem queima é o gás acima da água, não a água em si. Em condição ideal, uma chama de metano no ar pode atingir temperaturas da ordem de 1.900 °C, mas, ao ar livre, com mistura irregular de gás e oxigênio, vento, água e perda de calor, a temperatura real pode ser muito menor e variar bastante no trajeto do bombeamento."
Conclusão: é #FATO
Com base na análise de múltiplas fontes, incluindo publicações de veículos russos, relatos de turistas, vídeos no YouTube e a explicação do especialista da UFF, o vídeo é verdadeiro. O fenômeno ocorre devido ao escape de gás metano junto com a água, que queima sem causar danos imediatos ao banhista devido à proteção da água e ao curto tempo de exposição. No entanto, a situação é potencialmente perigosa e não deve ser replicada sem os devidos cuidados.



