As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas com perplexidade e um forte sentimento de injustiça. O colunista José Eduardo Agualusa, em sua coluna, analisa o fenômeno que chama de "república da amnésia", referindo-se à aparente falta de memória histórica sobre a luta contra o apartheid e a solidariedade entre os povos africanos.
Contexto das manifestações
Grupos de cerca de 100 pessoas, organizados pelo movimento 'March and March', saíram às ruas em Wynberg, subúrbio da Cidade do Cabo, para protestar contra a presença de imigrantes ilegais. A cena, registrada pelo fotógrafo Rodger Bosch da AFP em 20 de junho de 2026, mostra policiais acompanhando a marcha. O protesto reflete um sentimento xenófobo que cresce em algumas comunidades sul-africanas, direcionado principalmente a imigrantes de outros países africanos.
Análise de José Eduardo Agualusa
Agualusa destaca a ironia histórica: a África do Sul, que durante décadas lutou contra o regime de segregação racial com o apoio de toda a África, agora vê seus cidadãos hostilizando irmãos africanos. "Parece que a memória se apagou", escreve o colunista. "A solidariedade que recebemos durante o apartheid é esquecida por uma parcela da população que vê no imigrante um inimigo."
O autor também aponta para as causas estruturais: a alta taxa de desemprego e a desigualdade econômica alimentam o discurso de que os imigrantes roubam empregos e recursos. No entanto, estudos mostram que imigrantes frequentemente contribuem para a economia local, gerando empregos e pagando impostos.
Reações e consequências
As manifestações geraram preocupação em governos africanos e organizações de direitos humanos. A União Africana emitiu nota condenando atos de xenofobia e pedindo diálogo. Enquanto isso, o governo sul-africano reforçou a segurança em áreas de conflito e prometeu combater a violência contra imigrantes.
Agualusa conclui que a "república da amnésia" é um perigo não apenas para os imigrantes, mas para a própria democracia sul-africana. "Se esquecermos nossa história, estamos condenados a repetir os erros do passado", alerta.



