Em 2001, o empresário americano Dennis Tito pagou 20 milhões de dólares por uma viagem à Estação Espacial Internacional a bordo de uma espaçonave russa Soyuz, tornando-se oficialmente o primeiro turista espacial. “Foram oito dias de euforia”, disse ele no Cazaquistão após retornar à Terra. Vinte e cinco anos depois, o frenesi em torno da oferta pública inicial da SpaceX, juntamente com o recente sucesso da missão Artemis II da Nasa, fez com que as pessoas voltassem a sonhar com viagens espaciais. O cenário atual é mais robusto e comercial do que na época do voo de Tito.
Empresas privadas dominam o setor
O mercado é dominado por empresas privadas lideradas por bilionários: a Virgin Galactic, de Richard Branson; a SpaceX, de Elon Musk; e a Blue Origin, de Jeff Bezos. Elas estão na vanguarda, apesar de seus planos de curto prazo terem divergido nos últimos meses. Até este ano, cerca de 140 pessoas viajaram ao espaço como turistas, a maioria em viagens curtas de ida e volta nas bordas da atmosfera. Mas planos mais abrangentes para voos espaciais ambiciosos – viagens que levam passageiros em jornadas longas, em órbita – não se concretizaram, exceto por algumas exceções financiadas por bilionários. Enquanto isso, o desenvolvimento de um mercado amplo para o turismo espacial tem sido prejudicado por atrasos, custos crescentes e mudanças nas prioridades corporativas e governamentais.
Experiência suborbital da Virgin Galactic
Hoje, a grande maioria dos voos espaciais comerciais são suborbitais, e a Virgin Galactic, de Branson, é a principal fornecedora. Numa viagem de ida e volta de cerca de 90 minutos, os turistas sobem até perto da Linha de Kármán, o limite internacionalmente reconhecido para o espaço, cerca de 100 km acima do nível do mar, onde experimentam alguns minutos de ausência de gravidade. A astronauta Jamila Gilbert voou a bordo do último voo de teste da Virgin Galactic antes do início de suas operações comerciais em 2023. Em uma entrevista recente, ela contou que se lembra de ter desatado o cinto de segurança e de ter se sentido flutuando dentro da cabine enquanto a Terra se erguia etereamente do lado de fora da janela. “Tudo o que você já conheceu existia dentro dos limites da Terra”, disse ela, “e de repente você está olhando para ela de cima.”
Antes do voo espacial, os turistas devem passar por três dias de treinamento no Spaceport America, no Novo México, que inclui exames médicos, instruções sobre a missão e preparação física e mental. No dia do lançamento, um avião de transporte da Virgin Galactic, chamado Virgin MotherShip, sobe por cerca de 50 minutos até aproximadamente 50 mil pés, antes de liberar a espaçonave acoplada que transportará os passageiros o restante do trajeto até a Linha de Kármán. “Quando você escapa da atmosfera”, disse Jamila, “de repente você se encontra no lugar mais silencioso em que já esteve.”
Preços e lista de espera
Desde 2018, a Virgin Galactic já levou 32 passageiros ao espaço. O preço da passagem inicialmente era de US$ 200 mil e tem aumentado constantemente desde então. Após uma pausa de dois anos, a empresa retomou a venda de passagens neste ano, com o preço de US$ 750 mil por assento. Neste verão americano, está testando sua nova SpaceShip, que aumenta a capacidade de passageiros de quatro para seis. Espera-se que os voos suborbitais sejam retomados até o fim do ano. Há cerca de 650 passageiros aguardando uma vaga a bordo de um voo da Virgin Galactic. Mas, se tudo correr conforme o planejado, a maioria deverá voar até 2027 ou 2028, quando a empresa afirma que pretende ter capacidade para transportar 750 passageiros ao espaço por ano. “Temos pessoas que sonharam em ir ao espaço a vida toda”, disse Clare Pelly, vice-presidente de operações de astronautas, “incluindo algumas que viram o pouso na Lua e disseram: ‘Um dia farei isso’.”
Os clientes da empresa, segundo ela, são unidos mais por um conjunto de valores e objetivos de vida em comum do que por um perfil demográfico específico, e 60 países estão representados na lista de espera. “Pode parecer um pouco piegas”, disse Pelly, “mas lidamos com a vida e os sonhos das pessoas.” A empresa estima que cerca de 300 mil pessoas em todo o mundo possuem o patrimônio líquido adequado e o desejo de participar de uma voo suborbital, um número que, segundo as previsões dos executivos da empresa, crescerá cerca de 8% ao ano. A Virgin Galactic afirmou que planeja aumentar substancialmente a acessibilidade às viagens espaciais suborbitais nos próximos anos, com a adição de novos voos. Várias outras espaçonaves estão em construção e há planos para pelo menos mais um porto espacial na Europa ou no Oriente Médio. “Assim como escalar o Everest não é para todos, voar para o espaço também não será”, disse a astronauta Jamila. “Mas a possibilidade, que nunca existiu antes, de ter essa experiência agora está bem viva.”
Blue Origin suspende programa
Outras empresas podem estar abandonando o setor de turismo espacial. A Blue Origin, concorrente de Bezos, anunciou, após a conclusão de seu 38º voo suborbital bem-sucedido em janeiro, que suspenderia seu programa privado para passageiros, o New Shepard, por pelo menos dois anos. Ao suspender seus voos suborbitais, a empresa afirmou que se concentraria na construção de um foguete para entrar em órbita e no desenvolvimento de um módulo de pouso lunar para a Nasa. Diferentemente da Virgin Galactic, cujos veículos decolam como aviões convencionais, os foguetes da Blue Origin são lançados verticalmente, e seus voos suborbitais duram cerca de 11 minutos. Um total de 92 pessoas já viajaram para o espaço a bordo do foguete reutilizável New Shepard, que opera de forma autônoma.
Voos em órbita e o futuro
Em comparação com voos suborbitais, as viagens em órbita são muito mais desafiadoras tecnicamente e exigem que as espaçonaves atinjam velocidades significativamente maiores. A SpaceX, empresa de Musk, oferece aos turistas a oportunidade de entrar em órbita a bordo da Crew Dragon, anunciada como “a primeira espaçonave privada a levar humanos à estação espacial”. Essas viagens privadas duram de três a seis dias, exigem até nove meses de treinamento intensivo e custam cerca de US$ 200 milhões para quatro passageiros. Até o momento, cerca de duas dúzias de turistas já fizeram a viagem, incluindo um magnata das criptomoedas, um bilionário do comércio eletrônico e o amigo de um ganhador de um sorteio. (Assim como a Blue Origin, a SpaceX também está trabalhando na construção de um módulo de pouso lunar para a Nasa, embora o turismo lunar ainda esteja em fase inicial de planejamento.)
A Axiom Space, empresa sediada em Houston, já levou mais de 20 passageiros privados desde 2022 em foguetes da SpaceX para estadias na Estação Espacial Internacional. As passagens custam entre US$ 55 milhões e US$ 65 milhões por assento, com viagens que duram até duas semanas. A Axiom também está concorrendo para construir a substituta da estação espacial – a Nasa e seus parceiros internacionais planejam desativar a ISS no fim de 2030 –, que será a primeira estação espacial comercial do mundo. Alguns especialistas, como Rachel Fu, professora de turismo e hotelaria da Universidade da Flórida, preveem que uma infinidade de experiências turísticas estará disponível nos próximos anos – hotéis em órbita, laboratórios de pesquisa, missões lunares. Outros preveem que, à medida em que mais entidades comecem a operar no espaço, um ecossistema mais congestionado trará novos desafios, incluindo a forma como países e empresas irão coexistir nesse ambiente. A questão fundamental, disse Fu, não é mais “Podemos ir?”, mas sim “Podemos ficar, operar negócios e prosperar?”.



