A derrota da Seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 por 2 a 1 nas oitavas de final, o pior desempenho desde 1990, é mais um capítulo na história das derrotas mais dolorosas do escrete nacional. Neste ano, a derrota tem ainda o sabor do jejum: a Seleção canarinho chegará à próxima Copa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça — o que nunca ocorreu desde o primeiro título, em 1958.
O 7 a 1 para a Alemanha (2014)
O Brasil sediou uma Copa 64 anos depois de 1950. O time de Luiz Felipe Scolari venceu Croácia (3 a 1), empatou com México (0 a 0), goleou Camarões (4 a 1), passou pelo Chile nos pênaltis (1 a 1) e venceu a Colômbia (2 a 1). Na semifinal, no Mineirão, a Alemanha aplicou 7 a 1. O Brasil já perdia por 1 a 0 e levou outros quatro gols entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo. Depois, perdeu para a Holanda por 3 a 0 na disputa do terceiro lugar.
"Foi um balde de água fria, aquele desastre tático", diz o historiador Marcel Tonini, doutor pela USP e pesquisador do Centro de Referência do Futebol Brasileiro. "E eles tiraram o pé, senão seria ainda maior a goleada." Para o jornalista Celso Unzelte, comentarista da ESPN, "o marcante não foi a derrota em si, mas a diferença de gols, a maneira como o resultado aconteceu. Perder para a Alemanha seria normal. O placar é que não foi."
O Maracanaço (1950)
Em 1950, o regulamento previa um quadrangular final. Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai chegaram. Antes do último jogo, o Brasil tinha um ponto a mais que o Uruguai. A partida lotou o Maracanã. O Brasil abriu o placar com Friaça, mas o Uruguai empatou com Schiaffino e virou com Ghiggia faltando 10 minutos. O Uruguai sagrou-se bicampeão.
"Era evidente que a Europa não iria sediar a Copa [por causa da Segunda Guerra] e o Brasil se colocou um passo à frente", afirma Tonini. "Queria se mostrar como o país do futuro, e o símbolo foi o Maracanã." Após a derrota, a imprensa culpou três jogadores negros: Bigode, Juvenal e Barbosa. "O goleiro Barbosa foi o bode expiatório, um homem negro, pobre e estigmatizado", ressalta o sociólogo Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Na minha ótica, a derrota de 1950 foi a pior do Brasil", crava Tonini.
A final de 1998 contra a França
O Brasil era o atual campeão mundial. Antes da final, Ronaldo sofreu uma convulsão, mas entrou em campo. A França venceu por 3 a 0, com dois gols de Zidane. "Foi uma decepção. Chegamos à final depois de grandes jogos. E aí aconteceu aquele episódio com o Ronaldo que até hoje a gente não entendeu", comenta Tonini. "A França foi melhor, o placar de 3 a 0 não deixa dúvida", afirma Unzelte. Para o professor de marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, da ESPM, "a convulsão e as dúvidas dominaram o noticiário. A impressão era de que algo diferente havia acontecido antes da bola rolar."
A derrota para a Itália em 1982
O Brasil de 1982 é considerado uma das melhores seleções de todos os tempos, com Zico, Sócrates, Falcão e Júnior, treinada por Telê Santana. Caiu na segunda fase para a Itália, que venceu por 3 a 2, com três gols de Paolo Rossi. "Para mim, pessoalmente, a pior derrota foi em 1982. Eu tinha 14 anos e queria ser tetra ali, não em 1994", recorda Unzelte. "Foi um revés inesperado, talvez tão inesperado quanto o de 1950." Toledo analisa: "Era um time que encantava o mundo. Aquela derrota deixou a sensação de que o melhor futebol da Copa não foi campeão."
A eliminação em 1966
O Brasil, bicampeão em 1958 e 1962, não passou da primeira fase em 1966. Mesmo com Pelé, Garrincha, Tostão e Jairzinho, perdeu para Hungria (3 a 1) e Portugal (3 a 1), vencendo apenas a Bulgária (2 a 0). "Vinha de duas conquistas magistrais", destaca Tonini. "Arrumamos a desculpa perfeita na desorganização, que nos levou a montar quatro times com 44 convocados e, na hora agá, não termos nenhum pra botar em campo", conta Unzelte.
A Batalha de Berna (1954)
Em 1954, o Brasil, vice-campeão em 1950, mudou o uniforme branco para a camisa amarela. Venceu o México (5 a 0) e empatou com a Iugoslávia (1 a 1). Nas quartas, enfrentou a Hungria, que havia goleado a Alemanha Ocidental por 8 a 3. Mesmo sem Puskás, lesionado, a Hungria venceu por 4 a 2. O jogo teve três expulsões, dois pênaltis e uma briga generalizada. "O Brasil chegou com o peso da derrota em 1950. Perdeu na bola e na briga que teve ao fim do jogo", diz Tonini.
Para Unzelte, "ainda sofríamos com o 'complexo de vira-lata' de Nelson Rodrigues. Nem campeões éramos ainda, e portanto tínhamos menos a perder."



