Um grupo de 12 amigos de Botucatu (SP) transformou os jogos do Brasil na Copa do Mundo em uma tradição que já dura 36 anos, repleta de rituais e superstições. Desde o tetra, em 1994, cada um ocupa sempre o mesmo lugar no sofá. Alguns hábitos são ainda mais específicos, como o uso da mesma camisa da sorte desde então.
“Ela está desbotada, manchada, mas eu não abro mão da minha crença”, conta Roberto Curi. Outra regra surgiu após o penta, em 2002: desde então, as partidas decisivas da seleção são assistidas sempre na mesma casa.
Início da tradição em 1990
Essa história começou em 1988, quando os 12 amigos se conheceram no colégio. Dois anos depois, eles se reuniram pela primeira vez para assistir à Copa do Mundo da Itália, em 1990, e decidiram manter a tradição nas edições seguintes. De lá para cá, o grupo viu dois títulos mundiais, três finais de Copa e momentos marcantes juntos, como a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em 2014, sempre mantendo as tradições criadas ao longo dos anos.
Hoje, os encontros também reúnem filhos, sobrinhos, namorados e amigos das novas gerações e, em alguns jogos, já chegaram a reunir quase 50 pessoas. Para César Donato, um dos fundadores do grupo, o principal motivo dos encontros vai muito além do futebol.
“O verdadeiro motivo de cada encontro sempre foi a nossa amizade. Era uma conversa entre amigos que se transformou em uma tradição, uniu gerações e mostrou que o futebol ali pouco importava”, contou ao g1 César Donato.
Mesa-redonda e registros históricos
Depois do apito final, entra em cena outra tradição: a “mesa-redonda” do grupo, com análises, brincadeiras, provocações e muitas risadas sobre o desempenho do Brasil. O hábito de comentar as partidas é levado a sério. Na Copa de 1990, os debates eram registrados em fitas K7. Quatro anos depois, já com uma filmadora, as gravações passaram a ser feitas em VHS.
Com o passar dos anos, os registros acabaram se perdendo, mas a tradição acompanhou a evolução da tecnologia. Em 2020, durante a pandemia, o grupo chegou a realizar uma edição especial online para relembrar os assuntos mais comentados das Copas e matar a saudade dos encontros. Segundo Eduardo Sleiman, também fundador do grupo, a “mesa-redonda” virou um compromisso após cada partida do Brasil. “A partir daí, em todas as Copas sempre fizemos a mesa-redonda após cada jogo do Brasil.”
Títulos, eliminações e o trauma do 7 a 1
Ao longo de mais de três décadas, o grupo acompanhou momentos históricos da seleção brasileira. A conquista do tetracampeonato, em 1994, foi uma das lembranças mais marcantes, já que foi a primeira vez que os amigos viram o Brasil conquistar um título mundial. “O que mais marcou foi a vitória contra a Holanda nas quartas de final e a disputa de pênaltis na final”, conta Eduardo.
Na Copa de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão, os jogos realizados durante a madrugada dificultavam as reuniões completas do grupo. Na decisão, porém, todos estavam presentes. “Foi uma mistura de tensão até o Brasil marcar o primeiro gol, com a emoção e a alegria de ver o Brasil campeão com gols no tempo normal, sem prorrogação e sem pênaltis”, recorda.
A maior decepção veio em 2014, na derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em Belo Horizonte. Mais uma vez, os amigos estavam reunidos diante da televisão. Ao lembrar daquela tarde, Eduardo diz que o grupo demorou a acreditar no que estava acontecendo. “Nós não acreditávamos naqueles gols que iam saindo um atrás do outro contra a Alemanha. Parecia um pesadelo”, relembra.
E o Hexa?
Nesta segunda-feira (29), às 14h, o Brasil enfrenta o Japão em jogo válido pela primeira fase do mata-mata da Copa do Mundo de 2026. O horário, em plena tarde de segunda-feira, deve impedir a presença de todos os integrantes do grupo, mas, segundo César Donato, a tradição seguirá mantida. “Nesta segunda, estaremos desfalcados por ser dia útil e horário comercial, mas tenho certeza de que o Brasil vai passar pelo Japão. Aí o próximo jogo será no domingo, na minha casa, com muita festa”, afirma.



