Por Bruno Acerbi, 10/06/2026 | 15h00
Erinaldo Ferreira Alves, mais conhecido como Naldo, foi escalado e, pela primeira vez, vai entrar em campo para uma experiência que tende a ser a mais intensa da sua carreira. Torcedor fervoroso do Corinthians, migrante do Ceará e residente do bairro Grajaú, na zona sul paulistana, sabe que em tempos de Copa do Mundo tudo muda. Sente-se pronto!
Já a palmeirense Alessandra Duarte é veterana em campeonatos do tipo. Atua pela segunda vez no torneio. Já sacou que a tática é ter jogo de cintura e preparo físico e emocional para a maratona de jogos. Ainda tem frio na barriga.
Ambos são garçons, profissão muito requisitada no Brasil em tempos de Copa do Mundo. Só para se ter uma ideia, levantamento que acaba de ser concluído mostra que 52% dos estabelecimentos do tipo vão transmitir os jogos da Copa em seus recintos. E a estratégia para atrair público exige preparo, técnica e confiança de quem vai vestir a camisa no atendimento.
Não à toa, às vésperas da estreia do Brasil, no próximo dia 13 de junho, Naldo e Alessandra estão juntos no treinamento exclusivo destinado aos garçons que precisam garantir um bom atendimento aos torcedores mais fanáticos que estarão nas ruas.
Treinamento intensivo para garçons
A iniciativa é promovida pela Academia da Cerveja, em parceria com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que mapeou a necessidade do treinamento em pesquisa feita com porta-vozes do setor.
O Paladar acompanhou um dia de treinamento no Pirajá, reduto boêmio na zona oeste paulistana, e atestou que são vários os requisitos para “brilhar” no atendimento, como contaram Naldo e Alessandra.
Estratégia de time
Assim como um time de futebol, servir em um bar precisa de estratégia, foco e agilidade para garantir um produto de qualidade e um serviço eficiente. Quando o salão abre, cada funcionário assume sua posição ‘dentro de campo’ para trabalhar junto pela vitória do time. O chope servido gelado, com o colarinho na medida, mesmo com o grande movimento e a loucura do entra e sai, é tido como o verdadeiro golaço.
“A preparação do bar começa no estoque e na mão de obra. Em dias de jogo, a demanda aumenta, isso é certo. Ter o estoque correto e a equipe preparada é muito importante porque não há nada mais frustrante do que acabar o estoque ou sobrar muito”, afirma Alexandre Esber, gerente da Academia da Cerveja da Ambev e mestre cervejeiro há 25 anos.
“E, assim, por mais que o bar tenha a experiência de transmitir jogos do Brasileirão, por exemplo, Copa do Mundo é Copa do Mundo. Tem um quê de emoção nisso também”, completa ele.
Papel fundamental dos garçons
Nesse planejamento, os garçons cumprem um papel fundamental na relação com os clientes. São eles os responsáveis pelas primeiras impressões sobre o estabelecimento e devem ter um conhecimento apurado sobre o menu da casa.
“Muita gente vai aos bares e restaurantes durante a Copa do Mundo para torcer junto. É um momento de alegria, mas também de emoções muito fortes. Por isso, o atendimento faz toda a diferença. Os garçons precisam estar preparados para lidar com torcidas diferentes e receber bem todos os clientes, inclusive os que torcem por outros países”, falou Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel.
Experiências de Naldo e Alessandra
Para Naldo, essa relação com o público dos bares tem sido uma novidade. Ele acumulou anos de experiência trabalhando principalmente em restaurantes japoneses, italianos e pizzarias. Ao chegar ao Pirajá, o choque foi imediato. “O público dos bares é mais engajado com o futebol. Eles vêm para cá para festejar. Nos outros lugares o pessoal era mais reservado e não muito ligado em futebol.”
Já para Alessandra, a conexão criada com os clientes durante os jogos transforma o bar em um ambiente muito alegre. Ainda assim, é importante manter atenção aos pedidos, que aumentam muito antes e durante as partidas. “A gente sai com o braço doendo de tanto segurar a bandeja.”
Alessandra, vale dizer, estreou como garçonete no Pirajá na Copa do Mundo de 2022, justamente em um dia de jogo da seleção brasileira. E, por experiência, sabe que o brasileiro gosta de beber para comemorar, mas também não se furta a pedir mais uma para afogar as mágoas.
Novas caras para o setor
O treinamento de garçons, que também conta com a Catho, está em sua segunda edição. O curso passa por diversos módulos: desde qual é o posicionamento ideal e a distância adequada da mesa até como servir bem, o que fazer em casos de casa cheia, como ficar de olho na qualidade do chope, além da gestão emocional e das emoções do público.
Apesar da paixão dos funcionários pelo futebol, é preciso tomar cuidado para não perder o foco no serviço e deixar cair a qualidade do trabalho realizado. Com a imprevisibilidade dos jogos, os garçons precisam estar preparados para não deixar que nenhum acaso atrapalhe seu trabalho.
“Não dá para prever a hora do gol. Se o garçom estiver com a bandeja na mão, pode ser que precise ter um jogo de cintura, assim como o Romário naquela falta do Branco”, brincou o mestre cervejeiro Alexandre, em referência ao clássico desvio do baixinho na Copa de 1994 para não atrapalhar o caminho da bola até o gol após o chutaço de Branco.
Garçom é o guardião da moderação
Outro tema abordado no curso são dicas de como os garçons podem ajudar os clientes a prolongar a festa sem fazer com que o consumo exagerado de álcool crie situações desagradáveis.
Alexandre diz que os garçons, sem serem invasivos, podem sempre sugerir o consumo de bebidas alcoólicas junto com algum alimento e, entre um copo e outro, alternar a cerveja com água ou cerveja sem álcool.
“Precisamos lembrar que isso não é uma competição de quem bebe mais álcool. Vamos deixar a competição para o campo.”
Expectativas para a Copa
Fato é que, ainda que estejam preparados para atuar bem em caso de vitória ou derrota do Brasil, os garçons da Copa do Pirajá têm lá seus palpites. Para Naldo, a geração brasileira não tem o talento necessário e ele crava a Espanha como grande favorita. Já Alessandra acredita no sonho do hexa e afirma que vai espiar os jogos entre uma mesa e outra, indicando que o nome da Copa será dele: Endrick.
O mestre cervejeiro Alexandre também apresenta uma visão otimista para o desempenho do Brasil, mas com outro foco. Quanto mais datas de jogos da seleção, maior o movimento nos bares e, consequentemente, o aumento nas vendas.
Respira fundo e, em plenos pulmões, grita: Vai, Brasil!
“Estar em um bar durante a Copa do Mundo torcendo para o Brasil é uma coisa muito simbólica”, afirma Alexandre Esber.
Estagiário sob supervisão de Fernanda Aranda



