Como a Copa do Mundo cresceu até 48 seleções: geopolítica e dinheiro explicam expansão
Como a Copa cresceu: geopolítica e dinheiro explicam expansão

A Copa do Mundo de 2026 será a primeira a contar com 48 seleções, um marco na história do torneio. Essa expansão não aconteceu por acaso: ela é resultado de décadas de transformações geopolíticas, boicotes e, sobretudo, interesses financeiros. Desde os tempos de João Havelange, a Fifa soube aproveitar momentos históricos para aumentar o número de participantes e, consequentemente, sua influência e receita.

O papel de João Havelange na expansão da Copa

João Havelange, presidente da Fifa entre 1974 e 1998, foi o grande arquiteto do crescimento do futebol como negócio global. Ele assumiu a entidade em um contexto de descolonização africana e asiática, além do enfraquecimento das potências europeias após a Segunda Guerra Mundial. Havelange viu nesses novos países uma oportunidade de expandir o alcance da Copa do Mundo, transformando-a em um produto verdadeiramente mundial.

Foi sob sua gestão que o torneio passou de 16 para 24 seleções em 1982, na Espanha. A decisão foi motivada tanto por razões políticas — dar voz a nações emergentes — quanto financeiras: mais times significam mais jogos, mais audiência e mais dinheiro com direitos de transmissão e patrocínios.

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Blatter e a continuação do crescimento

Joseph Blatter, sucessor de Havelange, deu continuidade à política de expansão. Em 1998, a Copa passou a ter 32 seleções, formato que perdurou até 2022. Blatter também apostou na globalização do futebol, levando o Mundial a novos continentes, como a África do Sul em 2010. A lógica era a mesma: incluir mais países aumentava o interesse comercial e fortalecia a posição da Fifa no cenário esportivo internacional.

Gianni Infantino e o salto para 48 seleções

O atual presidente, Gianni Infantino, deu o passo mais ousado. Em 2017, a Fifa aprovou a expansão para 48 seleções a partir de 2026. A justificativa oficial foi dar mais oportunidades a países de todos os continentes, mas os números mostram o peso financeiro: a estimativa é que a receita da Fifa com a Copa de 2026 ultrapasse os US$ 11 bilhões, um aumento significativo em relação aos US$ 7,5 bilhões de 2022.

O novo formato terá 12 grupos de quatro times, com os dois primeiros de cada grupo e os oito melhores terceiros avançando para a fase de mata-mata. Isso significa 104 partidas, contra 64 do formato anterior. Mais jogos significam mais dias de evento, mais público nos estádios e mais exposição para os patrocinadores.

Geopolítica e boicotes como pano de fundo

A expansão também reflete tensões geopolíticas. Durante a Guerra Fria, a Fifa evitou alinhamentos explícitos, mas a inclusão de países do bloco comunista e de nações recém-independentes foi uma estratégia para ampliar a base de apoio. Boicotes também marcaram a história: em 1978, a Argentina sediou o torneio sob ditadura militar, e diversos países africanos boicotaram a Copa de 1966 em protesto contra o apartheid na África do Sul.

Nos anos 2000, a Fifa enfrentou críticas por corrupção, mas a expansão continuou como forma de manter a relevância do torneio. A decisão de Infantino de aumentar o número de seleções foi vista por muitos como uma tentativa de consolidar seu legado e garantir a lealdade de federações menores, que ganham mais vagas e, consequentemente, mais recursos.

O futuro do Mundial

Com 48 seleções, a Copa do Mundo se torna ainda mais inclusiva, mas também enfrenta desafios logísticos e de qualidade. Críticos apontam que o nível técnico pode cair, já que times menos expressivos terão mais chances de participar. Por outro lado, a Fifa argumenta que a expansão promove o desenvolvimento do futebol em regiões antes marginalizadas.

Em 2026, Estados Unidos, Canadá e México sediarão o torneio, que promete ser o maior da história. A geopolítica e o dinheiro continuarão a ditar os rumos do esporte mais popular do mundo.

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