CazéTV prova que internet venceu a TV na Copa do Mundo
CazéTV prova que internet venceu a TV na Copa do Mundo

Quando decidi pedir demissão da Record TV, em 2013, para investir em transmissões ao vivo na internet, muitos me acharam louco. Lembro que, na época, eu já dizia que em um futuro não tão distante passaríamos a assistir grandes eventos ao vivo — incluindo a paixão nacional, os jogos de futebol — diretamente pelo YouTube.

Em 2022, menos de dez anos depois, a CazéTV provou que a minha teoria estava certa. Durante a Copa do Catar, o canal mostrou que a democratização do acesso, sem barreiras financeiras ou logins burocráticos, era definitivamente o novo hábito da vez. Já naquela edição da competição, a plataforma registrou um recorde expressivo: 6,9 milhões de pessoas assistindo simultaneamente à final do torneio, em que a Argentina superou a França nos pênaltis.

Mas a Globo ainda tinha o Galvão. E por mais que os números do carismático Casimiro Miguel já indicassem o início de uma drástica mudança de comportamento e de uma nova tendência de mercado, os céticos insistiam na cartilha conservadora: “enquanto o YouTube tiver um delay muito maior do que o sinal da TV aberta, a CazéTV não conseguirá competir de igual para igual com a Globo”.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Corta a cena, quatro anos depois. A tela do YouTube segue tendo os mesmos quase 30 segundos de atraso no sinal. A TV Globo, no entanto, já não tem mais o seu histórico e principal narrador que, amado ou odiado, era o maior símbolo de transmissões de Copa do Mundo no país. A tentativa da concorrência de transformar esse delay em um problema para a audiência rapidamente se esvaziou.

Recorde de audiência na estreia do Brasil

Os números da estreia da Seleção na Copa do Mundo de 2026 não mentem. Durante o empate do Brasil em 1 a 1 com o Marrocos, a CazéTV alcançou o marco de 12,2 milhões de visualizações simultâneas — com picos de 12,7 milhões. A partida não só se tornou a maior exibição de futebol da história da plataforma, como superou o topo geral do YouTube, batendo os 8 milhões de espectadores alcançados pela missão espacial Chandrayaan-3 em 2023.

Para coroar esse movimento de expansão comercial e comunitária, a emissora digital ainda ultrapassou a marca de 30 milhões de inscritos, sendo agora dona de seis das dez maiores transmissões ao vivo da história.

A grande reflexão sociológica por trás das telas?

A conveniência, meus amigos, vence a sincronia. O brasileiro aceita a vida com 30 segundos de atraso. E faz isso de bom grado em troca da praticidade irresistível de abrir um aplicativo gratuitamente, em qualquer dispositivo (celular no transporte, notebook do trabalho ou tablet na cama), sem precisar efetuar cadastros complexos.

Simples na exibição, complexo na operação

A CazéTV não é fruto do improviso: ela se apoia na musculatura empresarial do grupo Live Mode, uma empresa fundada por veteranos do esporte que tem revolucionado as mídias. Com o tempo, como vimos na transição de simples produtores de conteúdo para gigantes dos negócios, grandes influenciadores se fundem às marcas corporativas criando uma conversão poderosa pela força de suas narrativas e comunidades.

Essa mesma Live Mode continua pavimentando terreno rumo à Europa em parcerias globais, solidificando as cifras astronômicas de faturamento conquistadas ao reter os direitos de todos os 104 jogos da Copa de 2026 — enquanto a TV aberta ficou com fatias menores.

A prova desse sucesso comercial é o faturamento astronômico da emissora. Para o Mundial de 2026, a parceria entre a CazéTV e o YouTube bateu a impressionante marca de R$ 2 bilhões arrecadados em cotas de patrocínio. Com cada cota master comercializada por nada menos que R$185 milhões, o canal atraiu marcas gigantes do mercado, como Coca-Cola, Itaú, Mercado Livre, iFood, GM e Ambev.

O mercado publicitário compreendeu o recado: o engajamento autêntico e a comunidade construída por influenciadores entregam uma conversão mais efetiva do que a da mídia tradicional. Por fim, esse contexto de migração faz com que os veículos tradicionais percam gradativamente a hegemonia.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Não à toa, em 2025, a TV Globo lançou a marca “GE TV” e finalmente se rendeu ao modelo de transmissão de jogos via YouTube. O objetivo é simples: reconquistar as audiências fragmentadas para manter a relevância de sua esteira publicitária. Daqui a quatro anos, quando uma nova Copa chegar, descobriremos se a emissora consolidada conseguiu voltar a ditar as regras ou se terá perdido de vez o trono de dona exclusiva da nossa sala de estar para os empreendedores da nova geração.