MC Carol estreia em novela e fala sobre preconceito e carreira
MC Carol estreia em novela e fala sobre preconceito

MC Carol, aos 32 anos, está prestes a estrear como atriz na novela das nove “Quem ama cuida”, da Globo. Ela interpreta Mirtes, uma mulher que cria o menino Camilo (Antonio Caramelo) como se fosse filho. Em entrevista ao EXTRA, a cantora de funk revela que a experiência é a mais difícil, gratificante e bem paga de sua carreira. A personagem tem tudo a ver com sua história pessoal: Carol foi criada pelos bisavós e só reatou com os pais biológicos aos 28 anos.

Preconceito com o funk e motivação para atuar

No Dia Nacional do Funk, celebrado no próximo domingo, Carol reflete sobre o preconceito que o gênero ainda enfrenta. “O funk não tem ainda o respeito que merece. Sinto isso o tempo inteiro”, afirma. Ela conta que as críticas a atacam também por ser mulher: “Quando as pessoas querem me atacar, falam: ‘Você não é feminista porque canta sobre sexo’. Sou feminista justamente porque estou defendendo a liberdade da mulher”.

O preconceito a levou a buscar a atuação. “Tinha na minha cabeça que o problema era o funk, por conta dos desrespeitos, dos ataques. Comecei a pensar: e se eu fosse para a atuação, será que eu conseguiria o respeito das pessoas?”, questiona. Ela observa o respeito que atores como Taís Araujo, Sheron Menezzes e Lázaro Ramos conquistaram e decidiu seguir esse caminho.

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O caminho até a novela

Carol já havia recebido um convite para participar de “Travessia” (2022), mas não pôde aceitar por causa de shows na Europa. No ano passado, enfrentou dificuldades financeiras, rompeu com a empresária e entrou em uma agência de atores. Gravou um vídeo para o banco de talentos dos Estúdios Globo e, no fim do ano, foi chamada para a oficina de atores. “Pensei que eram só aulas, não imaginei que ia acontecer alguma coisa depois disso”, lembra. Tatá Werneck contou a ela que o vídeo foi elogiado até pela diretora Amora Mautner. “Chorei na hora que ela me contou”, revela.

Reações e bastidores

As pessoas acham que tudo foi sorte, mas Carol garante que é fruto de muito trabalho. “Atuar é a coisa mais difícil que já fiz em toda minha vida, a mais legal e a mais bem paga também!”, diz. Ela sente medo diariamente, mas se prepara: “Se estou a não sei quantos passos do Tony Ramos é porque eu me preparei muito. Tô lutando, decorando texto, e fazendo aulas de prosódia para ter sotaque de São Paulo”.

Nos bastidores, ela se sente acolhida. “Todo mundo é muito legal. Jeniffer Nascimento (a Nanci) sempre está aberta para bater texto comigo antes. Não é qualquer pessoa que topa isso. Às vezes eu erro na gravação e peço desculpa, e o pessoal fala: ‘Tá tudo bem, Carol’.”

Identificação com a personagem

A personagem Mirtes cuida de Camilo, e Carol se vê na história. “Por incrível que pareça, uma ironia do destino, eu sou como o Camilo na vida real, porque fui criada pelos meus bisavós. Voltei a ter contato com minha mãe e meu pai aos 28 anos. Tô com 32 agora, então fiquei a vida toda sem falar com eles. Não chamo minha mãe de ‘mãe’ e meu pai de ‘pai’, chamo pelos nomes deles. Com minha bisavó (Elizete) é diferente: eu abraço, beijo, falo ‘Te amo, vovó’. Ela tem 89 anos! Todo dia pergunta qual vai ser o dia da estreia na novela.”

Sobre ser mãe, ela planeja para o ano que vem, mas brinca: “Só se a Globo mandar! Se me quiser grávida na tela, eu topo e vai acontecer.”

Vida pessoal e outros projetos

O marido, o modelo e ex-ator de filmes adultos Cosme Santiago, está surpreso com a nova fase. “Ele tá gostando e, assim como todo mundo, está surpreso. Eu só contei pra ele um dia antes de me anunciarem. Sou assim, não conto nada antes do tempo, para ninguém.”

Carol espera que a atuação mostre outro lado seu. “As pessoas têm uma imagem de mim que é aquela do palco, a ‘fodona’ que grita, bate e xinga. Mas na vida real eu sou muito mais parecida com a Mirtes. Sou tímida, ‘família’, gosto do silêncio, de ficar em casa, vendo novela. Sou noveleira. Ouço músicas que as pessoas não imaginam como fado, orquestra árabe, músicas francesas, Nina Simone, Amy Winehouse.”

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Ela não quer que as pessoas a vejam de outro jeito, pois sua imagem de menina raivosa a levou ao sucesso. “Se lá atrás eu fizesse músicas de amor, falando do sol, do mar, da brisa, eu não ia ganhar dinheiro, não teria viralizado. Viralizei porque era uma menina de 15 anos com aquele ódio na expressão corporal, na voz, no olhar.”

Adolescência difícil e sonho de infância

Carol enfrentou muito racismo e machismo na adolescência. “Era uma criança gorda, preta e de cabelo crespo. Usava uma bandana e meu apelido era ‘Tia Anastácia’, do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ e outros apelidos que falavam do meu corpo, do meu cabelo, da minha pele. Eu não ia nem para o recreio, ficava dentro da sala com um amigo que tinha deficiência.” Para se defender, tornou-se agressiva, ganhando o apelido de Carol Bandida. “Nasci Carolina, uma menina doce, que gostava de desenhar, mas não pude mais ser assim.”

Seu sonho de infância era ser desenhista, mas o bisavô disse que “desenho não é profissão”. Recentemente, ela voltou a desenhar e pretende expor em um museu futuramente.

Agenda e novos projetos

Carol está fazendo menos shows para se dedicar à novela, mas não quer largar os palcos. Neste sábado, ela se apresenta na Boate Save, na Lapa. “A Lapa é sempre animada, um fenômeno!”, comemora. Ela também lançará um novo projeto na semana que vem, com uma música inspirada na personagem: “Quem ama cuida”. “Algumas pessoas me ajudaram a escrever, a compor. Tô me aventurando no pagode. Fiz de sacanagem, mas vai que dá certo.”