Bob Wolfenson: fotógrafo de 71 anos segue em plena atividade
Bob Wolfenson: fotógrafo de 71 anos segue em plena atividade

Bob Wolfenson, aos 71 anos e com mais de cinco décadas de carreira, construiu uma assinatura na fotografia que vai além do domínio técnico. Ele desenvolveu uma habilidade espontânea de não se levar demasiadamente a sério, o que funciona como um elixir da juventude, mantendo-o requisitado e produtivo em um mercado cultural machucado.

Resiliência após enchente

Em fevereiro de 2020, uma violenta enchente destruiu parte de seu acervo histórico no estúdio da zona oeste de São Paulo. Em vez de se entregar ao luto, Bob enxergou a lama e a água como coautoras involuntárias, transformando ranhuras e borrões em traços criativos. Desse olhar nasceu o livro e a exposição Sub/Emerso, uma colaboração visceral de 50 anos de fotografia com a força do imponderável.

Entrevista no Trip FM

Na entrevista conduzida por Paulo Lima no Trip FM, Bob abordou temas como medo da morte, dinâmica dos encontros que resultam em retratos eternos, inteligência artificial e o exercício obstinado do olhar original.

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Navegando no mercado

Bob afirma não ter uma estratégia específica de reinvenção. Ele precisa trabalhar por necessidade econômica, não apenas por desejo romântico. Desde os anos 90, mantém um viés paralelo ao trabalho comercial, o que lhe deu sobrevida. No pós-pandemia, lançou cinco livros em cinco anos.

Perda do pai

Seu pai morreu quando ele tinha 15 anos. Isso determinou tudo. Ele se tornou fotógrafo por causa da morte do pai, conseguindo um emprego na Editora Abril. A perda precoce gerou medo de morrer, mas a idade trouxe aceitação. Ele brinca: “Meu pai morreu muito cedo, às sete horas da manhã”.

Encontros efêmeros

Bob define o fotógrafo como um “especialista em encontros efêmeros”. A foto icônica de Caetano Veloso de olho arregalado não nasceu de um plano mirabolante. Ele pediu que Caetano levantasse a sobrancelha, e o cantor se revelou um coreógrafo de sobrancelhas impressionante. A foto do Lula fumando em 1978 também se tornou icônica pela relevância histórica do retratado.

Sub/Emerso: tragédia em poesia

A enchente deu unidade estética inesperada a papéis e ampliações antigas. A água criou rasgos e manchas que alteraram a materialidade das imagens. Bob criou o conceito de “sobrememória”: uma memória física da tragédia sobreposta à memória original. Em vez de lutar contra a perda, aceitou a intervenção da natureza.

Mudança moral na fotografia

Bob avalia o movimento pendular na sociedade que baniu a fotografia de corpos humanos. Ele reconhece a legitimidade da revolução moral, mas aponta exageros. Revistas masculinas abusavam da objetificação, mas ele e colegas como Duran criavam ilhas de cuidado estético. Um turning point foi o ensaio com Maitê Proença na Itália, inspirado no neorrealismo italiano, que lhe deu poder para ditar regras.

Projeto com a Vale

Bob realizou um projeto com a mineradora Vale e Gaby Amarantos, resultando em exposição no Museu do Amanhã. Ele sabia do passivo institucional, mas viu o envolvimento de Gaby na preservação da Amazônia e aceitou o convite. A Vale patrocinou a exposição de seu material autoral.

Superexposição

Bob lida com a superexposição evitando ver o que fez. Não gosta de ouvir entrevistas ou olhar fotos publicadas, pois é o juiz mais cruel de si mesmo. Se houver um preço, será cobrado na biografia pós-mortem.

Gestão financeira

Bob cultiva alienação deliberada em relação aos riscos. Monta a estrutura e a necessidade de mantê-la o empurra para o trabalho. Descobriu um mercado corporativo sólido, com retratos para famílias ricas e executivos.

Inteligência artificial

Bob acredita que atrás de qualquer engrenagem sempre haverá a necessidade do olhar humano. Pode ser atraído pela IA, talvez dirigindo a ferramenta a partir de seu olhar.

71 anos na estrada

A ambição diminuiu, mas a ansiedade continua. Bob diz: “Quando você é jovem é melhor. Mais velho você pensa: já tive ideia para burro, já está feito o que eu precisava. Mas a outra opção é muito pior”.

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