Jão lança 'Memórias Póstumas' e fala sobre luto após morte do pai
Jão lança 'Memórias Póstumas' e fala sobre luto após morte do pai

Após mais de um ano afastado dos holofotes, Jão voltou neste domingo (26) com o disco Memórias Póstumas, um trabalho profundamente pessoal que nasceu do luto pela morte de seu pai, Carlos Alberto Balbino, aos 61 anos, em junho de 2024. O cantor de 31 anos, que em abril havia anunciado um hiato na carreira e se afastado das redes sociais, revelou em entrevista ao g1 como a perda o impactou e como a música se tornou uma ferramenta de cura.

“Eu acho que eu sempre imaginei as coisas de uma maneira muito épica. Achava que, no dia que eu perdesse alguém, ia ser uma coisa, uma chuva torrencial e eu ia, sei lá, receber vários sinais divinos. Mas era só um dia comum”, disse Jão, descrevendo a banalidade da tragédia. Após a morte do pai, ele ficou paralisado por semanas, sem conseguir ouvir música, até que uma corrida noturna ao som de Lorde desencadeou uma enxurrada de emoções e composições.

Um processo de luto sem objetivos

Jão contou que compôs mais de 50 músicas nesse período, sem a intenção inicial de fazer um álbum, apenas para extravasar sentimentos. “Eu fiquei muito tempo sem ouvir música. Engraçado como a gente se condena por umas coisas muito estranhas, né? Eu não me dava o direito de ouvir música porque eu achava que música era uma coisa boa para mim, que me alimentava, e que seria injusto naquele momento”, explicou. A virada veio quando ele correu e ouviu Lorde: “Eu chorei muito. Não lembro o que ouvia, só lembro que a música bateu muito em mim. Foi um momento de vômito, assim mesmo.”

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O álbum Memórias Póstumas reflete múltiplas perspectivas, incluindo a do pai em “Jabuticabeira”, a da avó em “Eu Sempre Volto” – cantada no feminino – e a do namorado em “João”. “Eu perdi um pouco a perspectiva das coisas quando estava no interior, em junho passado. Não estava ligando muito para carreira, para música. Então é um álbum que tem muitas perspectivas diferentes, num momento em que eu estava sem perspectiva”, afirmou o cantor.

A arte de conviver com a morte

A capa do disco mostra Jão “pegando carona” com a Senhora Morte, olhando para o horizonte. Segundo ele, a imagem representa como a morte é cotidiana e inesperada. “Acho que não existe um objetivo com o luto, não existe um objetivo com tentar entender esse sentido. É um aprendizado de convivência mesmo”, disse. Para Jão, honrar o pai é viver a vida intensamente: “Meu pai era extremamente direto e extremamente vivo. Minha maneira mais legal de honrar a vida dele era viver a minha vida de forma mais foda possível. Ele era meu fã, e tudo que acontece na minha carreira, eu quero contar para ele. Isso me move, saber que meu trabalho deixa ele vivo para mim.”

O músico confirmou um show de retorno no dia 25 de setembro, em um palco 360°, um desejo antigo. “É um desafio muito grande, porque o Brasil tem poucos lugares onde é possível realizar, mas eu sempre quis chegar o mais perto possível de todo mundo. A força motora que liga aquela coisa toda são as pessoas que estão ali”, destacou.

Parceria com o namorado Pedro Tófani

Uma novidade do álbum é a faixa “João”, a primeira composição da carreira de Jão escrita por outra pessoa – seu namorado, Pedro Tófani. A música, melancólica, com versos como “Talvez seja a hora de abandonar os planos / E nos dar algum descanso definitivo”, foi mantida com a voz da demo original. “Obviamente, depois eu arestei as coisas que queria arestar, mas aquela voz é a minha da demo, tentando encontrar a melodia”, explicou.

A relação pessoal e profissional com Tófani é complexa. Jão afirmou que separar o pessoal do profissional é “uma grande questão”. “A gente briga bastante, e grande parte das nossas brigas é profissional. Mas a forma como minha vida aconteceu, e acho que ela não aconteceria tão bem nem profissionalmente, nem pessoalmente, se não fosse assim”, disse. O cantor se alimenta do cotidiano da relação para compor, e a parceria rendeu frutos novamente neste álbum.

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