Leo Jaime revive balada 'A vida não presta' e a trajetória de injustiças musicais
Leo Jaime revive balada 'A vida não presta' e injustiças

Leo Jaime subiu ao palco do Manouche, no Rio de Janeiro, na noite de quinta-feira, 2 de julho, para participar do show em tributo a Erasmo Carlos (1941–2022), apresentado por Malu Rodrigues e a banda do Tremendão. A participação surpresa emocionou o público e trouxe à tona a canção 'A vida não presta', lançada por Leo em 1985 no álbum 'Sessão da tarde'. A frase-título ecoa ironicamente quarenta anos antes da declaração oposta de Fernanda Torres, que ao receber o Globo de Ouro de melhor atriz em janeiro de 2025 por sua atuação em 'Ainda estou aqui' (2024) disse que 'a vida presta (e muito!)'. A associação entre a fala da atriz e a canção de Leo Jaime ressalta o contraste entre o otimismo premiado e a melancolia pop dos anos 80.

Carreira promissora nos anos 80

Leo Jaime, hoje com 66 anos, iniciou sua carreira musical nos anos 80 com cinco álbuns de estúdio. O primeiro, 'Phodas C' (1983), tinha tom tecnopop e repertório irregular. Seguiu-se 'Sessão da tarde' (1985), considerado o título mais bem-sucedido de sua discografia, com lado A de acabamento pop irretocável. 'Vida difícil' (1986) marcou o primeiro suspiro de maturidade, com a canção 'Nada mudou'. Em 1988, lançou 'Direto do meu coração para o seu', disco romântico no qual regravou 'Gatinha manhosa', sucesso de Erasmo Carlos em 1966. O último álbum da década, 'Avenida das desilusões' (1989), trouxe uma abordagem fluente de 'Índios', música do segundo álbum da Legião Urbana. A sequência parecia indicar uma carreira luminosa.

A década de 1990 e o declínio

Nos anos 90, a trajetória de Leo Jaime degringolou. A troca da gravadora CBS pela Warner Music revelou-se um mau negócio. Após o lançamento de 'Sexo, drops e rock'n'roll' (1990), um embate com a Warner o colocou na 'geladeira' por cinco anos. O álbum foi uma tentativa frustrada de fazer Leo retornar a um universo adolescente, já inadequado para um homem de 30 anos. O retorno veio em 1995 com 'Todo amor', um bom álbum de intérprete, mas o mercado musical já havia mudado. 'O mundo já era outro, a trilha sonora do Brasil já era outra e Leo Jaime perdeu o bonde da história musical', relata a crônica. Desde então, ele se reinventou como ator, cronista e redator de programas de TV, ofícios que já exercia desde a estreia no musical 'Os saltimbancos' (1977/1978).

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Legado e reconhecimento tardio

Apesar das dificuldades, Leo Jaime lançou em 2008 o álbum 'Interlúdio', também bem recebido. Erasmo Carlos via Leo como uma espécie de sucessor na dinastia do rock brasileiro. 'Talvez a vida prestasse mais se Leo Jaime fosse mais reverenciado', reflete o artigo. A participação no tributo a Erasmo reacendeu a memória de sua obra, especialmente 'Sessão da tarde', um tratado juvenil sobre amor e desilusão sob a ótica dos 'loosers' – garotos pobres apaixonados por meninas de melhor condição social. O show 'Fotografia', em 1998 no Teatro da Praia, em Copacabana, com Leoni, marcou um momento inesquecível para o autor do texto, que aos 33 anos percebeu que também não era mais jovem. Hoje, prestes a completar 61 anos, ele conclui: 'há beleza em todo o inexorável fluxo da vida e que ela, a vida, sempre presta, ainda que muitas vezes seja difícil e injusta'. E endossa: 'Sim, Leo Jaime, Fernanda Torres tem razão. A vida presta...'

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