Para a surpresa de muitos, depois de trailers de qualidade duvidosa e da ideia questionável de atualizar uma franquia ultrapassada de heróis dos anos 1980, "Mestres do Universo" se revela um bom filme. É divertido, colorido, engraçado e ridículo – muito ridículo, assim como o desenho que inspirou a nova adaptação, mais de quatro décadas após seu lançamento original. O novo filme do He-Man, que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros, prova que a grande força do boneco megamusculoso sempre foi abraçar a cafonice de seu corte de cabelo chanel e rir de si mesmo.
Com um diretor experiente no gênero e um elenco recheado de ótimas surpresas, como a melhor atuação de Jared Leto talvez desde "Clube de Compras Dallas" (2013), "Mestres do Universo" faz um ótimo trabalho para apresentar os personagens a uma nova geração. Resta saber se alguém vai querer ver, de fato.
Comparação com Dungeons & Dragons
Em um nível nem tão superficial, o filme lembra muito o malfadado "Dungeons & Dragons: Honra entre Rebeldes" (2023), que também modernizou uma franquia nascida nos brinquedos e esquecida nos cinemas, conquistou a crítica e o público que o assistiu – e no fim fracassou de forma retumbante nas bilheterias. A comparação é inevitável, já que, assim como seu primo distante de espírito, o novo He-Man é colorido, honra o material original muito mais do que deveria e não se leva a sério. A ponto de arriscar alienar os fãs da animação original, que podem ter outra versão dos bárbaros e monstros parrudos construída pelos anos na memória afetiva. Ao mesmo tempo, em uma época em que o auge dos filmes de super-heróis parece passado, o maior desafio do bombado de shortinho de gladiador é convencer espectadores da geração Z e alpha a comprarem ingressos.
Origem bem-feita
Se ninguém aguenta mais histórias de origem, "Mestres do Universo" pelo menos é uma história de origem bem-feitinha. Nela, o príncipe exilado (Nicholas Galitzine) de um planeta distante precisa encontrar uma espada lendária para voltar para casa e derrotar um vilão megalomaníaco (Leto) e inseguro com cara de caveira. Claro, assim como outros exemplares do gênero, demora a mostrar o protagonista em toda a sua glória ou a exaltar seus bordões famosos – e ainda comete o pecado de levá-lo para a Terra, uma ideia que historicamente dá muito mais errado do que certo. Mas o filme faz funcionar, por mais que toda a sequência inicial com a infância do herói seja um pouco sofrível.
Grande responsável por isso é Galitzine ("Uma Ideia de Você"), que dá credibilidade ao ridículo da premissa e aos poderes absurdos do personagem com um timing invejável para o humor. Do outro lado, Leto se esbanja com os trejeitos caricatos do antagonista esquelético e, mesmo escondido atrás de um rosto criado por computação gráfica, relembra por que já foi um dos atores mais promissores de sua geração.
He-Mannaissance?
Com a excelente animação em stop motion "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016) e o competente "Bumblebee" (2018) no currículo, o diretor Travis Knight era o maior – e talvez único – motivo para ter um pouco de esperança. Por sorte, o cineasta entrega a sensibilidade necessária para que "Mestres do Universo" funcione, com o olhar de fã necessário para um autor que não se preocupa com o que os demais admiradores do desenho vão pensar. Junto do roteirista Chris Butler, antigo parceiro de Knight que assinou a trama com base em versões anteriores de outras pessoas, ele mistura referências que vão além da animação, como os inúmeros memes que sustentam os personagens ao longo dos anos, e uma mensagem atualizada para um novo público. No meio, ainda encontrou espaço para dar uma justificativa completamente aceitável para os nomes abobados dos personagens, como Aríete (Jon Xue Zhang) e Mekaneck (James Wilkinson). Mais do que tudo, o filme também ostenta uma leveza que representa o verdadeiro espírito da franquia nos anos 1980.
Trilha sonora e conclusão
Por fim, é obrigatório exaltar a trilha sonora de Daniel Pemberton. Junto ao seu trabalho no incrível "Devoradores de Estrelas", de março, o compositor dos dois "Aranhaverso" se firma cada vez mais como um dos mais empolgantes do cinema atual. "Mestres do Universo" é uma má ideia que não tinha o menor direito de dar certo. Contra tudo e contra todos – e com uma boa ajuda de escolhas certeiras em elenco e equipe –, de alguma forma funciona. Se novas gerações chegarem a assistir, pode ser o começo de um He-Mannaissance (um Renascimento do herói, se preferirem). Mas é preciso que alguém esteja disposto a dar uma chance para um bárbaro de tanguinha de couro em pleno 2026.



