A pressão sobre as NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional série B) aumentou nas últimas semanas, elevando os prêmios de risco exigidos pelos investidores. O movimento reflete a combinação de inflação persistente, juros elevados e incertezas fiscais, e o mercado não vislumbra alívio no curto prazo.
O que são NTN-Bs e por que estão sob pressão
As NTN-Bs são títulos públicos indexados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que oferecem proteção contra a inflação. Quando a demanda por esses títulos cai, os prêmios sobem, indicando maior percepção de risco. Segundo analistas, a pressão recente decorre de expectativas de que a inflação continue acima da meta, mesmo com a Selic em patamar elevado.
O mercado monitora de perto os leilões do Tesouro Nacional. No último leilão de NTN-Bs, a taxa de juros real (prêmio acima da inflação) atingiu 6,20% ao ano, o maior nível desde 2016. Para efeito de comparação, no início do ano a taxa estava em torno de 5,50%.
Fatores que alimentam a pressão
Entre os fatores que explicam o movimento estão a desancoragem das expectativas de inflação, a deterioração fiscal e a incerteza política. O IPCA acumulado em 12 meses está em 8,5%, bem acima do centro da meta de 3,5%. Além disso, o governo enfrenta dificuldades para aprovar medidas de ajuste fiscal no Congresso, o que aumenta o prêmio de risco soberano.
"O mercado está precificando um cenário mais adverso para a inflação e para a política fiscal. Enquanto não houver sinais claros de convergência da inflação para a meta e de melhora nas contas públicas, a pressão sobre as NTN-Bs deve continuar", afirma Carlos Oliveira, economista-chefe da gestora Alpha Asset.
Impacto para investidores e perspectivas
Para os investidores, a alta dos prêmios representa uma oportunidade de compra, mas com riscos. Se a inflação cair mais rápido que o esperado, os títulos podem se valorizar. No entanto, se a inflação permanecer elevada, a rentabilidade real pode ser corroída. O mercado de NTN-Bs também influencia o custo do crédito e as decisões de política monetária.
O Banco Central (BC) sinalizou que pode manter a Selic em 13,75% por mais tempo, o que reforça a cautela. As projeções do mercado indicam que o IPCA deve fechar 2026 em 6,0%, ainda acima da meta. Enquanto isso, o Tesouro Nacional deve continuar emitindo NTN-Bs para financiar a dívida pública, mas a demanda pode ser afetada pela aversão ao risco.
O que esperar para os próximos meses
Analistas consultados pelo Valor projetam que as taxas das NTN-Bs devem permanecer elevadas até que haja sinais concretos de queda da inflação e de avanço fiscal. O calendário de leilões do Tesouro e as decisões do Copom serão acompanhados de perto. "O alívio pode vir com a aprovação de reformas estruturais e a desaceleração da inflação, mas isso não deve ocorrer antes do segundo semestre de 2026", avalia Oliveira.



