Enquanto canetas emagrecedoras, clubes de corrida e influenciadores fitness lucram milhões de dólares ao redor do mundo, o mercado imobiliário se movimenta para atrair esses consumidores. A Housi, startup de locação residencial, anunciou um novo modelo de apartamento para locação, equipado com estação de treino, banheira de gelo e colchão de massagem.
No Housi Paulista, localizado na Rua Bela Cintra, o primeiro “quarto wellness” da marca está disponível para estadias de curta duração. O preço da diária é R$ 850. “Neste momento, em razão da fase inicial de operação e da quantidade ainda limitada de unidades, a ocupação ocorre em janelas de prazo mais curtos”, explica a empresa em nota. A companhia garante que, à medida que novas unidades entrarem em operação, passarão a existir diferentes opções de permanência, conforme a disponibilidade da plataforma e a demanda dos usuários.
“O ser humano nunca esteve tão atento e preocupado com saúde e bem-estar. A busca por longevidade redesenhou hábitos, o consumo de álcool entre as novas gerações despencou e as pessoas estão mais focadas em movimento, consistência e performance”, diz Roberta Faria, sócia-fundadora e diretora de operações da Housi.
A proposta da marca é criar um ambiente de treino e regeneração voltado à saúde física e mental dos moradores. O quarto wellness tem uma banheira de gelo para recuperação muscular, colchão com sistema de massagem, travesseiros de colágeno, chuveiro de ozônio e uma estação de treino integrada com uma varanda.
O apartamento é assinado por Gabriela Bahia, influenciadora com quase 1 milhão de seguidores no Instagram e fundadora da Crew, uma comunidade de treinos para mulheres. Com serviço de quarto, o apartamento permite a compra de alimentos sem glúten e lactose, suplementos alimentares, aluguel de eletrodomésticos, roupas de academia da Lupo e serviços de massagem, manicure e beleza.
Influenciadores para atrair consumidores
O quarto wellness faz parte da Housi Wellness, vertical criada pela Housi para desenvolver empreendimentos no segmento de saúde e bem-estar. A companhia atua na concepção, adaptação e gestão de apartamentos comprados por investidores ou desenvolvidos por incorporadoras com foco na renda da locação.
“Para potencializar a ocupação, a Housi ativa grandes influenciadores do segmento fitness e de bem-estar. Essa conexão garante que o apartamento seja amplamente divulgado em comunidades engajadas com o estilo de vida saudável”, diz a diretora da Housi.
A expectativa da marca é que, até 2026, a vertical chegue a R$ 600 milhões em VGV (Valor Geral de Vendas). Para alcançar esse potencial, a Housi desenvolveu uma parceria com a Vitacon, incorporadora famosa pelos empreendimentos compactos e “empresa-mãe” da Housi. O empresário Alexandre Frankel é o fundador das duas companhias. Um projeto da Vitacon nos Jardins, com previsão de entrega para abril de 2030, oferecerá aos investidores a possibilidade de adotar o conceito “Housi Wellness”. “Trata-se de um prédio inteiramente voltado para a vertical wellness, projetado desde a planta com esse conceito”, explica Roberta Faria.
Setor movimentou US$ 876 bi em 2025
O movimento realizado pela Housi se enquadra em uma tendência global do mercado imobiliário. De acordo com o Global Wellness Institute, esse setor movimentou US$ 876 bilhões globalmente em 2025. No Brasil, o tema se torna cada vez mais popular, atrai investimentos milionários e impulsiona grandes projetos.
Em Curitiba, a Incorporadora Piemonte recentemente anunciou o Piemonte Alberi Home & Wellness, um empreendimento com 75 apartamentos de 152 m² a 408 m². Localizado em um terreno de 6 mil m² no bairro Cabral, região nobre da cidade, o projeto terá três torres residenciais e as unidades devem custar a partir de R$ 2,6 milhões.
“Em áreas maiores, a tendência é ampliar a integração com a natureza, áreas verdes e espaços abertos de convivência. Já em terrenos mais compactos, o wellness aparece em áreas de lazer nos primeiros pavimentos ou rooftops, com academia, áreas de relaxamento e estruturas para prática esportiva”, explica Filipe Biscaia Demeterco, diretor-presidente da Piemonte.
Outro projeto que se apoia no bem-estar dos moradores como atrativo imobiliário é o Montez, empreendimento da incorporadora e construtora Porto Camargo, em Curitiba. “Muitas vezes, o wellness é tratado como um conjunto de equipamentos ou áreas de lazer. Aqui ele nasce com a relação com a natureza, a caminhabilidade, o conforto ambiental e a promoção de hábitos mais saudáveis”, diz Lua Franciosi, diretora da PROA Arquitetura, responsável pelo edifício.
Os 30 apartamentos de 109 m² a 298 m² custam a partir de R$ 2,3 milhões e, segundo a companhia, 40% foram vendidos no primeiro final de semana. “É uma consequência de boas decisões tomadas desde a escolha do terreno. Identificamos a área verde e decidimos potencializá-la como um ativo. Tem pomar, meliponário, hotel de insetos e espaços que incentivam a biodiversidade ativa”, complementa Erick Garcia Ribeiro, diretor de criação da PROA.
Atrativos que influenciam a decisão de compra
Dados da Brain Inteligência Estratégica indicam que a estrutura esportiva dos condomínios, o isolamento acústico dos apartamentos e a presença de áreas de lazer no empreendimento influenciam positivamente a decisão de compra de um apartamento, especialmente entre os mais jovens.
No entanto, Henrique de Geroni, fundador da Bioma Incorporadora, entende que o mercado imobiliário brasileiro incorporou o wellness como eixo de discurso, mas ainda não como uma mudança real de projeto. “O termo aparece associado a academias completas, spas, piscinas climatizadas e áreas verdes cuidadosamente cenografadas”, diz.
Ele acredita que a ideia ainda não se traduziu em mudança, de fato. “O ‘clube completo’ foi reembalado como ‘espaço wellness’, sem alteração consistente na lógica de concepção das unidades ou decisões arquitetônicas. Trata-se de uma mudança de vocabulário, não de projeto”.
“O desafio para o mercado é que isso não se resolve com adição de amenities, mas com mudança de lógica de projeto. Wellness, quando levado a sério, não é um conjunto de espaços adicionais, mas um conjunto de decisões estruturais que atravessam todo o edifício, como orientação solar, permeabilidade, materiais, escala dos ambientes, acústica e flexibilidade de uso”, finaliza.



